Por Mayara Floss, residente de Medicina de Família e Comunidade

Fiz a paramentação para atender os pacientes sintomáticos respiratórios, ou seja que estão apresentando tosse, febre, nariz escorrendo – nesta pandemia. Atenção as instruções e com um pouco de dor na lombar por carregar em caráter de urgência bancos, cadeiras, geladeiras e conseguir montar uma sala – em uma unidade em reforma e com pouco espaço – para atender os sintomáticos respiratórios. Respira, inspira e chama o próximo paciente (por que eles não podem esperar muito também). Tinha acabado de orientar um senhor simples e desempregado que disse estar com tosse e sem nenhuma alteração respiratória, achei estranho ele ter vindo, não precisava de atestado, não precisava de medicação. Sentei e orientei.

Em seguida, chamei uma mulher, que descobri ao longo da consulta ser sua esposa. Com sintomas parecidos e por trás da máscara, eu via olhos assustados, olhos tristes. Demorei para entender o real motivo dos dois estarem ali. No final da consulta ela falou:

  • É bom comer fruta para o coronavírus né?
    Olhei para ela, concordei, mas fiquei esperando, parecia que tinha mais algo. Concordei e ela continuou:
  • Mas eu não tenho dinheiro para fruta, a gente vive só do bolsa.
    Eu queria dar orientações sobre isolamento domiciliar, ela não sabia nem ler. Vivia só do bolsa. Eu com touca, óculos, avental, luvas e tudo. Ela enfim perguntou, por trás da máscara, o que de fato trazia os dois ali:
  • Doutora, tem cesta básica para quem está com coronavírus?

Abraços que pousam,
Mayara

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