Por Carolina Reigada, médica de família e comunidade

Estava no parquinho com minha filha, antes da solicitação de isolamento social, mas depois dos primeiros casos de coronavírus no país. Eis que escuto as crianças debatendo:

– Vamos brincar de quê?

– Pique-pega!

– Pique-alto!

– Ah, não! Vamos brincar de corona! Eu tô infectado! Vou pegar vocês!

Todas as crianças saíram correndo e gritando, mas parece que o pique-corona ainda não tinha regras: algumas subiram no alto, algumas se isolaram atrás de brinquedos. Uma foi até o pai e, conscientemente, passou álcool gel nas mãos e saiu correndo atrás da criança “infectada”.

Achei o máximo. 

Ao acabar de atender uma pessoa com suspeita de infecção por coronavírus, geralmente estou algo tensa, preocupada de me infectar e acabar infectando alguém que mora comigo – uma sombra que vem me tirando a tranquilidade mental todos os dias. O peso da culpa de algo acontecer à alguém que mora comigo me faz rever o protocolo de proteção individual com alguma obsessão: toquei na máscara? Ela está bem adaptada? O óculos escorregou? 

Mas então eu lembro daquele menino, que tão corajosamente se protegeu com álcool e disparou atrás do “infectado”. 

Respiro fundo, ainda falta para isso tudo acabar.

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