Por Alfredo de Oliveira Neto

Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno

(Antonin Artaud)

Faz mais de uma semana que a minha vida deu um ziguirau. A nossa, né? Naquele 13 de março de 2020, sexta, fui pegar os meninos na escola e a questão era se a partir de segunda fecharia ou não. Como sou médico, notei que durante esta semana ou na anterior professoras e auxiliares vinham em minha direção para saber sobre o corona toda vez que lá aparecia.

Antes dos filhos, costumava ler uma revista e pelo menos uns dois jornais por semana, depois comecei a me contentar com manchetes. Há um ano venho ouvindo, enquanto dirijo, podcasts, sou viciado em dois particularmente: Foro de Teresina e Durma com Essa, faço questão de “zerar” quando passo algumas semanas sem ouvir. Também sou viciado em Spotify, tenho duas bandas, gosto de ler duas páginas de literatura e uma de não-ficcional por semana, e só.

Então como o corona ainda não tinha chegado na minha unidade de saúde e nem nos diálogos e trabalhos com os estudantes de medicina e de pós-graduação, eu só sabia dele de podcasts e de manchetes. Sabia do comércio de animais silvestres em Wuhan, do hospital em tempo recorde, do alastramento na Ásia e me gabava em repetir uma informação que ouvi de um podcast de amigos, o Medicina em Debate, que enquanto a mortalidade do corona era de 2%, a do H1N1 era de 17%, a da Dengue bem maior que 2%. Então, até 13/3/20, eu fazia pouco caso.

Cheguei ao Rio durante a epidemia da dengue de 2008, em 2009 ainda como plantonista havia prescrito muito oseltamivir (Tamiflu) para pessoas com síndrome respiratória aguda grave com H1N1, Zika em gestantes em 2016, Chikungunya de 2018 até hoje, acompanhando as artrites e dores neuropáticas crônicas. Estimei o corona como uma gripe menos grave que o H1N1. Ele é parente do vírus SARS de 2002, mas enquanto o SARS infectou 8 mil pessoas em 10 meses, 40 mil pessoas em 1 mês na China estavam com corona. A explicação parece ser, além da mutação viral, o adensamento populacional em regiões urbanas e o aumento da população: 100 milhões de novos chineses entre 2002 e 2020. 

“2%! Pra que esse alarde?!” Não havia eu calculado a taxa de transmissibilidade do infeliz que só tem uma fita de RNA, sem uma mísera membrana nuclear, espalhada num citoplasma tosco. Uma coisa são 10 mil pessoas pegarem H1N1 com mortalidade a 17%, outra são 500 mil numa taxa de 2%. E para o H1N1 havia o oseltamivir e vacina em tempo recorde, para o corona ainda nada concreto, acabei de ler uma rápida revisão sobre a hidroxicloroquina de 19/3 e, infelizmente, nada certo. Ou seja, aquela tranquilidade que passei para as professoras e auxiliares da escola dos meninos sofreu deslizamento de terra. Inclusive no sábado 14 fui a um aniversário de uma amiga, já a partir de domingo entrei em quarentena restritiva, ufa!, quase empatei com Bolsonaro.

Sem empregada doméstica, sem avós e sem babá, com uma mínima exceção justificada que conto adiante, saindo apenas para trabalho essencial e supermercado. O perrengue mor é que minha companheira também é médica, ou seja, são dois essenciais fora de casa e, após malabarismos de escala, sempre um essencialzão dentro. São duas crianças e duas máquinas, de louça e de roupa, ligadas, 15h por dia. Além das refeições, arranhões, mordidas e tabefes, grupos de zaps incessantes de pessoas sem filhos pequenos e com um oceano de Netflix à sua frente.

Todavia, neste primeiro atrás da máscara, quero falar sobre duas mortes. Depois de três meses guerreando em UTIs, o avô de 98 anos da minha companheira morre na última quinta. Foi a 1a vez desde 13/3 que a babá veio para minha companheira ir ao velório, não fui, estava no trabalho essencial de fora. O guerreiro conseguiu sair de uma sepse sem aminas e ainda receber alta, voltou em poucos dias e ficou lúcido até poucos dias antes de ir.

O mais longevo homem da família do meu pai se foi aos 66. Meu pai, aos 59. Por parte de mãe, meu avô foi a 82, mas teve dois filhos que partiram por infarto aos 39 e 49. Portanto, 90 para mim é praticamente uma utopia, 98 então é uma revolução comunista de sucesso iniciada na Barra da Tijuca. Como ele se foi no meio de uma pandemia, fiquei especulando se ele teria passado por algo parecido em uma vida secular no Brasil. Nasceu em 1921, a gripe espanhola foi em 18, quando 50 milhões de pessoas no mundo foram mortas em apenas um ano, e na 2a guerra não houve batalhas em território nacional, mas teve racionamento, porém nada comparado com agora. De forma que, no dia-a-dia do brasileiro, há 102 anos não acontece nada parecido.

Foi justamente a partir de 1918, que se iniciou uma campanha política para que o setor saúde atingisse a alçada de ministério, coisa que só vingou em 1930. Os pobres morreram aos milhares em 18, em um só dia no Rio houve mil mortes, os que tinham mais tostões fugiram para fazendas no interior, mas mesmo assim até o presidente da república, Rodrigues Alves, eleito no ano anterior, se tornou “espanholado”, como se dizia à época, chegando a falecer. Não havia álcool gel a 70%, nem a 100 reais. Muito menos SUS, esta “petulância” ao capital especulativo na saúde, esta “irreverência” de sistema universal em um país colônia-periférica-agroexportadora, que já nasceu mirrado na prática em 1990 e desde então vem perdendo recursos para o setor privado. Sim, para quem não sabe, o setor privado disputa o orçamento com o setor público em saúde, lobby e aumento da bancada de operadoras e do complexo médico-industrial na saúde no parlamento. A contrapartida do serviço privado está em alas destinadas ao SUS por trás da maquiagem hoteleira, algo tipo “elevador de serviço”, ou também na oferta de cursos para profissionais de saúde decorados numa aura “filantrópica”. Porém, desde 2016, o SUS recebeu um haraquiri samurai na aorta: a emenda complementar 95, o congelamento dos gastos públicos para os próximos 20 anos.

O corona chega num dos momentos mais radicalmente liberais na economia brasileira, uma ortodoxia macabra para os mais pobres que só conseguiu espaço nas ditaduras latinoamericanas. Se até o FMI condenou políticas de austeridade, brincar de Estado Mínimo é como se um playboy merdeiro sem limites fosse recompensado após ter colocado fogo no índio. Em ambos os crackings, 1929 e 2008, quem salvou a humanidade senão os Estados? Não foi Rockefeller, nem Gates, muito menos a Dow Jones ou a Bovespa. Após um ato irresponsável grave, certo da impunidade, o playboy vai à procura da vovó milionária com pires na mão e um rostinho que lembra o bebê fofo que foi antes de se perder no mundo. Quem é a vovó? O Estado.    

E daí que quero falar da 2a morte, o primeiro cadastrado da unidade de saúde da família onde trabalho como médico de família e comunidade no Rio de Janeiro. Foi no sábado 21/3, tinha mais de 60 anos e uma história antiga de insuficiência cardíaca, mesmo sem descompensações recentes, grupo de risco. Ainda não foi confirmado o corona. Uma coisa que também eu não sabia até 13/3: os 2% saltam para cerca de 11% para os grupos de risco e, a depender de vários fatores ainda não compreendidos, em alguns lugares como a Itália, é ainda maior.

Pois bem, as idas à unidade previamente ao desfecho haviam sido sem complicações de síndrome respiratória aguda grave, porém o atendemos sem equipamento de proteção adequada: não há capote impermeável, óculos de proteção em quantidade insuficiente, e máscaras faltaram em algum momento. Percebi que não era um problema apenas do Rio. Ou seja, até 13/3 muitos gestores de saúde pública do Brasil, os que precisavam ter se munido desde janeiro, quando o corona despontou em Wuhan, pareciam estar na mesma vibe que eu: uma marolinha. Entretanto, para o Rio a previsão era de mar flat: vinha faltando sabão na unidade há algumas semanas e todos nós da região da Grande Tijuca estávamos com salários atrasados até 22/3.

A crise na Atenção Primária à Saúde (APS) do Rio não é novidade nem para o mundo mineral, como diz Mino Carta. Nos últimos três anos, houve diminuição de agentes comunitários de saúde, de 6 para 4 em cada equipe, cortes de mais de 200 equipes, entre saúde da família, equipe de saúde bucal e núcleo de apoio à saúde da família e, recentemente, rescisão de contrato com organizações sociais de saúde e admissão por empresa pública de direito privado, o que até parece uma medida coerente, porém numa atitude brusca e mal planejada, resultando em diminuição salarial, o que resultou num impasse de contratação entre as semanas pré e pós carnavalescas de 2020 e um vazio assistencial um mês antes de o corona aportar no país. Brigas jurídico-sindicais, atrasos salariais e greves são o café com pão dos profissionais de saúde da APS desde 2017.

Cortar gastos da base do serviço de saúde é renomear a pirâmide de organização de serviços para Morro do Bumba. Mesmo quando as melhores evidências científicas em saúde orientam investir no fortalecimento da APS, seja no público ou no privado, o Rio vem reduzindo drasticamente a cobertura populacional de pessoas cadastradas em equipes de saúde da família. Todavia, o que é evidência científica para governos anti-científicos e contrários a um Estado Laico? Megacorporações evangélicas até há poucos dias se recusavam a interromper os cultos presenciais. No plano federal, na calada da noite do dia 20/3, uma sexta, o governo aprovou o decreto que lança a Agência para o Desenvolvimento da APS (ADAPS), uma natureza jurídica tipo organizações sociais em saúde (OSS), ou seja, mesmo com todas as experiências e evidências contrárias à relação entre APS e OSS no país, homologam o decreto numa sexta à noite em meio a uma pandemia. Brecha para caixa 2 e super salários, nada de novo no front da “velha política”.

Decidi começar esta série atrás da máscara depois de encontrar um jovem, estilo executivo, de propés, máscara e luvas em um supermercado na zona sul do Rio na semana passada. Eu tinha vindo da “sala do corona”, o local destinado a sintomáticos respiratórios, usando material de proteção desfalcado.

Chegamos a nos encarar na fila e a ensaiar um diálogo telepático:

-1918…

-2020!

E o Sr. Brasil Dividido de 2013 Pra Cá nos acenava da ala dos frios furiosamente, tentando nos alcançar a coronadas.

#FiqueEmCasa

Alfredo de Oliveira Neto é médico de família e comunidade, professor da UFRJ e um dos autores dos livros Causos Clínicos: histórias da medicina de família e comunidade (2018), Causos Clínicos: quando fui paciente (2019) e do livro de poesias A Casa dos Macacos (2019)

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