Esculhambose

Eram já 11 h da manhã e o professor que acompanhava os internos na UBS rural já se preparava para encerrar as atividades após terem atendido todos os pacientes agendados.

Prestes a sair, os 3 alunos que se encontravam na mesma sala de atendimento foram surpreendidos com uma última ficha recém-adicionada à pilha de prontuários. “Temos mais uma antes de irmos ao quilombo”, acrescenta o professor. “É uma funcionária aqui da unidade que pediu para passar em consulta. Vocês podem chamá-la?”

Prontamente, um dos internos dirige-se à recepção para procurar pela funcionária Adriana [nome fictício]: “Dona Adriana, vamos lá?”.

Adriana entrou na sala com tranquilidade, já acostumada com o ambiente acolhedor da unidade e com os médicos e alunos que ali frequentavam.

“Sou eu mesma. Precisava que vocês dessem uma olhadinha em mim porque eu não estou mais aguentando essa dor no meu braço.”, diz Adriana indicando com as mãos o local onde a dor mais lhe incomodava.

 “Bom dia Adriana. Sou a Maria Fernanda e eu vou fazer o seu atendimento hoje, tudo bem? Como posso te ajudar?”

“Então, eu estou com essa dor no meu ombro direito já faz umas 2 semanas. Semana passada tomei uma injeção de Profenid com Dipirona. Até melhorou, mas essa semana já voltou a doer de novo. Estou até estressada a semana toda por causa dessa dor. Já faz muito tempo que tenho isso porque na verdade eu tenho bursite, tendinite nos dois braços e no outro eu também tenho tendão rompido e estou aguardando um exame ainda para fazer. Eu falo que eu tenho “esculhambose” sabe? Tudo meio torto mesmo”, completa a paciente em meio a risos, apesar da queixa que a incomodava.

Será que essa “esculhambose” é do trabalho?, indagou o professor, que observava o atendimento do canto da sala.

“Ah eu já fiz de tudo! Eu já trabalhei correndo atrás de caminhão de lixo, já fui gari, já fiz faxina por muitos anos, já fui servente de obra, já cozinhei, varria rua pela prefeitura. Agora já faz uns 6 anos que eu trabalho aqui no posto. Comecei na parte da limpeza e agora fico encarregada da recepção. Trabalhei muito pesado nessa vida. Por isso tenho tantos problemas nos braços hoje em dia. Além disso, tive que criar meus 3 filhos sozinha porque meu ex-marido não me ajudava em nada…”

Com o decorrer da consulta, durante o exame físico, tornou-se nítida a transformação da percepção que os estudantes tinham sobre aquela mulher que tão voluntariamente se expunha, como se não houvesse nada de especial em sua trajetória. Ela passou gradativamente de uma figura atrás do balcão que distribuía “Bom dias” e que se ocupava de suas tarefas administrativas para um ser humano, uma mulher guerreira, uma pessoa que buscava ajuda, munida de uma história de vida digna de comoção e admiração por parte daqueles que a atendiam. A metamorfose era incontestável: aquela mulher adquiriu um novo significado, uma nova fascinação aos que estavam presentes.

 “Nossa, parabéns Adriana. Você é realmente muito guerreira!”, concluiu Maria Fernanda, que prosseguiu: “E aconteceu alguma coisa durante esses dias que possa ter aumentado essa dor?”

Adriana refletiu por um instante e confessou em tom de lamento: “Ah, na verdade sim. O meu ex-marido faleceu faz umas 2 semanas.”

“Meus sentimentos… tem sido difícil para a senhora?”, “Na verdade tem sido sim, eu senti muito. Ele foi meu primeiro namorado, né? Tivemos 3 filhos e ficamos juntos por 18 anos. Então a gente acaba sentindo, né? Não tem como não sentir. Eu fui no enterro dele, sabe? Depois de mim, ele teve mais 2 mulheres e falava pra elas que na verdade ainda me amava. Eu falava pra ele não dizer isso mas ele insistia e as outras sempre me odiaram por isso. Mas ele foi muito ruim no final da relação sabe? Ele me batia, me agredia. Não só fisicamente, sabe? Com palavras também. Aí chegou uma hora que eu não aguentei mais e terminei. Eu acho que o limite da relação é quando acaba o respeito com o outro, entende? Quando o homem chega nesse ponto e perde completamente o respeito pela mulher, aí já não tem mais jeito mesmo.”

O relato de Adriana não parecia abalá-la de forma alguma. Ela seguiu contando sua história sem hesitar: “Minha ex-cunhada me ligou no dia anterior da morte dele e falou que ele estava muito mal no hospital, pedindo pra que eu fosse vê- lo. E sabe, parecia que ele só estava me esperando chegar para partir. Ele estava em coma, né? Mas eu falei com ele, falei que perdoava ele de tudo. Que da minha parte estava tudo certo. Que eu não guardava rancor de forma alguma. Poucas horas depois que eu fui embora, ele faleceu.”

“E como você se sentiu com tudo isso?

 “Ah eu fiquei muito triste!”, respondeu, cabisbaixa.

“E você chegou a comentar com alguém sobre seus sentimentos?

“Não! Eu não podia contar para ninguém por causa de tudo aquilo que ele me fez. Eu sofri muito. Todos sabem tudo da minha vida e sabem o quanto eu sofri com ele. Como seria possível eu gostar de alguém que me fez tão mal assim? De ter esse sentimento por alguém que não me tratou como eu merecia? Eu só estou contando isso para vocês aqui. Ninguém mais sabe lá fora.”

Um misto de vergonha e dúvida se esboçou no rosto de Adriana. Aquele sentimento ambíguo de luto claramente lhe causava estranheza e um certo desconforto.

 “Mas você tem medo do julgamento das outras pessoas?”

“Sim, de certa forma tenho. Eu não queria contar isso pra minha família.”

 “Sabe, mas você não deve se culpar por ainda ter sentimentos por ele. Vocês tiveram uma história juntos, tiveram filhos. Apesar de tudo o que você passou de ruim com ele, também tiveram muitos momentos bons. Então você não precisa ter medo desse sentimento”.

“É verdade, gostaria de poder falar mais sobre meus sentimentos”

 “Então será que, de certa forma, toda essa dor não teria piorado depois desses dias tão conturbados, com tanto estresse?”

Eu acredito que sim! Eu estou fazendo várias coisas pra ajudar a melhorar a dor. Faço pilates, natação, yoga. E até ajuda bastante. Mas eu precisava voltar a fazer com mais frequência. Eu tenho muita energia, sabe? Preciso estar sempre em movimento. Sempre fazendo alguma coisa.”,

Dona Adriana, seus sentimentos são legítimos, você não precisa se mostrar tão forte assim o tempo todo. As vezes lidar com os próprios sentimentos, tirar um tempo para si e buscar ajuda quando necessário podem ser os melhores remédios. Conte conosco aqui sempre, estaremos a disposição para ouvi-la!”

O encontro com Dona Adriana se encerra com uma simplicidade. Podia ser sentida a sensação de que todos aprenderam e cresceram com aquela experiência. Um atendimento humano, centrado na percepção e nas repercussões sobre a própria pessoa, desviando o foco da tradicional busca pela explicação anatômica e fisiológica.

Dona Adriana toma aqui a receita do analgésico para caso a dor fique pior.

Adriana já saindo da sala sorridente diz:

Muito obrigada, pessoal estou bem melhor e aliviada!

Autores:

Fernando Eugênio de Araújo Aguiar (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Katia Scanagatta (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Maria Fernanda Rodrigues Mundo (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Fábio Miranda Junqueira (MFC e professor do internato rural da FCMS da PUC-SP)

Maria Carolina Pereira da Rocha (MFC e professora do internato rural da FCMS da PUC-SP)

 

 

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