Maria Sanfoneira

por Amanda Freitas

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Sua filha me procura no consultório, primeiro encontro. Com carinho, diz que a mãe é a pessoa com quem ela mais se importa. Gostaria de dar os melhores últimos dias de vida a ela. Acho bonito o que ouço. É a primeira vez que alguém me procura de maneira tão formal para “cuidados de fim de vida” ao trazer consigo um encaminhamento do oncologista: ” Solicito cuidados paliativos em clínica da família”.

O caminho que vem por aí é longo: descrição de consultas diversas, foi pra esse hospital, pulou pro ambulatório, fez ligadura elástica, teve medo, se sentiu mal, emagreceu, “tudo por causa da bendita transfusão de sangue”. Agora com um câncer hepático avançado.

– E como ela tá em casa?

– Ah, sente umas dorzinhas na barriga, mas nem parece que está tão grave assim. Por isso mesmo tenho medo de contar, não quero que ela saiba que vai morrer, queria que ela morresse de uma vez, sem tem que saber de nada.

Conversa vai e vem sobre sabermos os desejos da senhora M.L., a importância de conhecer as prioridades dela como rotina agora e nos momentos finais. Do que ela não abriria mão?

– Sabe o quê que é? Acho que ela quer morrer em casa, isso me assusta muito. Um cunhado meu morreu em casa dia desses e foi uma via crucis pra tirar o corpo, ninguém dá atestado de óbito não, tivemos que comprar na funerária.

– Entendi que você dá o atestado de óbito já que estaremos em acompanhamento contigo, muito obrigada. Mas e se ela morrer no fim de semana, e se for no Natal? E se você tiver viajando… a gente fica na mão, né?

Muitas perguntas surgem, muita insegurança. Penso, divido o caso, dou meu número de celular.

– Pra garantir que não vai ter confusão com atestado.

– Gostaria de visitar sua mãe, que dia posso?

Marcamos.

Durante a sequência de dúvidas que se seguiu, não consegui barrar o meu pensamento em reviver alguns momentos.

De início, me lembrei da faculdade: o primeiro ser humano que vi morrer. Foi em uma enfermaria hospitalar, também vítima de câncer, 43 anos, houve um período de gemência longo, fiquei ao lado dele com a esposa. Um tio religioso ligou, colocaram o celular no viva voz, havia orações, canto de músicas e choro. Inspirou pela última vez quando seu irmão chegou. Depois me contaram que eles eram brigados, há anos não se falavam, sugeriram que ele o esperou chegar para poder ir. Era quem tava faltando pra despedir a fim de completar seu tempo por aqui. Coincidência ou não, me marcou e me intrigou. Será que essas coisas acontecem mesmo? Foi um dos momentos mais marcantes da graduação pra mim.

Em seguida, durante um estágio da faculdade, visitei uma cidade mexicana chamada Metepec, na qual me mostraram orgulhosos uma escadaria a perder de vistas onde se montam: “Los coloridos altares por Día de Muertos”. Tratam-se, basicamente, de mesas com as comidas preferidas dos entes queridos falecidos, a fim de que eles saiam de onde estiverem e se deliciem entre festa e sorrisos com o dia que foi dedicado a eles. Informação guardada na caixinha de conhecimentos estranhos.

Dois anos depois veio o livro da Ana Claudia Quintana, que fez com que o tema morte fosse como um cabelo pós-camping sem banho se desembaraçando na água quente do chuveiro de casa. Engoli o livro todo num dia. Assunto difícil que ao longo das páginas vai sendo tratado como natural. Faz a gente acreditar na possibilidade de vida e beleza na terminalidade.

Depois, me lembrei da oficina que fui durante um congresso. Imagine que você tem uma doença grave e 1 ano de vida. O que, dentre essas proposições, é essencial para você? Pode selecionar 20 opções. Valendo! Inicia uma “taquicardia nos meus dedos”, como dizia uma paciente, para fazer essa escolha. Agora, 6 meses, 1 mês, 1 dia, 1 segundo… a fantasia da vida escorrendo pelas mãos, e no final apenas 1 item que seria o mais importante pra mim. Difícil escolher, complicado saber o que é imprescindível, quando um cardápio de opções parece ser.

Agora o mesmo tema que já me encontrou como acadêmica, turista, leitora e pessoa ciente da própria finitude, agora me desafia como médica.

Hoje fui visitar dona M.L. Uma rua bem larga, culminou em uma médio larga, depois um beco estreito, do qual se erguia uma escadaria íngreme que dava numa portinha.

– Vim ver sua mãe, como a gente combinou.

– Oi, dona M.L., tua filha falou tão bem de você que não pude deixar de vir te ver.

Trata-se de uma senhora de feição alegre sentada em uma cama, conversamos um bocado. Pergunto-lhe de sua rotina.

– Minha casa, na verdade, é no andar de baixo. Mas eu tenho ficado aqui nesse quarto, porque aqui o sol me alcança.

Me viro, pela janela tenho um vista lindíssima da Rocinha, mosaico infinito de construções e o mar lá no horizonte.

– Mas, além de curtir esse visual aqui, o que mais a senhora gosta de fazer?

– Vou te contar um segredo: quando eu era bem criança, tinham festejos desses bem caipiras la no Ceará, via as pessoas tocando sanfona e achava bonito demais. Agora, depois de velha, pensei que ia gostar muito de ter uma dessas. Juntei um dinheirinho e consegui comprar uma mês passado, é bonita que só. Não consigo fazer acorde nenhum não, só uns barulhinhos mesmo, mas já fico feliz demais. Vamos fazer assim… da próxima vez que você vier, eu toco pra você, pode ser?

Confirmei sem hesitar.

O pensamento se manteve borbulhante acerca da beleza e ambiguidade desse momento: fim de vida junto à presença intensa dela.

 

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