A cura pela escuta

por Bianca Forreque

Resultado de imagem para a cura pela escuta

“O que te trouxe aqui hoje, Pedro?”

“Então, doutora…”

Ele começa o discurso com a voz muito calma e uma postura ereta, dedos de uma mão juntos aos dedos da outra. Quase numa posição de meditação. Uma voz tão plácida que seria difícil acreditar que anunciaria alguma queixa.

“Eu vim porque o outro doutor – com quem eu me consultei porque a sua agenda estava muito cheia há alguns dias – pediu exames. Queria ver os resultados. Eu também ‘tô com uma mancha nas costas, já tem três meses, que coça bastante – principalmente quando eu suo. Eu já tive pano, mas tratei!”
Pela primeira vez ele se mexe na cadeira. Inquieta-se. Parece introduzir a próxima queixa já com a linguagem corporal. “E também tem essa dor na nuca, que eu sinto há alguns dias.”
Mira o olhar ao chão, enquanto passa a mão sobre o músculo que dói.

“Todos os dias ela dói um pouco, mas principalmente ao acordar. Eu queria uns remédios para essa dor.”

“Entendi. Mais alguma coisa que você queira me contar?”

À negativa dele, reviso suas queixas, uma por uma.

“Vamos ali pra eu te examinar?”

Agora sobre a maca, perscruto sua pele sob a nesga de luz solar que invade o pequeno consultório da unidade de saúde. Pedro mantém uma postura rígida, especialmente ao expor o corpo sob a camisa. Mas nenhuma exposição seria como a que viria depois.

Primeiro diagnóstico feito, volto a atenção à nuca. À palpação da porção superior do trapézio, Pedro refere dor. O músculo está retesado, como se há muito tempo ele não respirasse fundo e relaxasse os ombros. Ao mover a cabeça, mais dor. Sem irradiar a nenhum lugar. Toda concentrada nesse espaço, logo ali: no pescoço – um tronco de sustentação ao peso imensurável dos nossos pensamentos.

“Dói aqui, né? Sua musculatura ‘tá dura… vem cá, ‘tá rolando algum estresse?” Inclino a cabeça, num sinal de genuíno interesse, enquanto me coloco à sua frente, de pé. Ele sentado sobre a maca, olhos mirando o chão. O rosto ganha uma iluminação especial: a pífia luz de fora do consultório clareia sua testa. Nesse momento ele levanta seu olhar para mim – e então eu percebo que o verdadeiro motivo da consulta estava por vir.

“Olha, doutora. Então… eu vou falar.”

Os minutos que se seguiram a essa fala foram de uma nudez mais severa que o revelar da pele.

“Eu sou casado há 35 anos. Nas versidades e adversidades. Sabe como é? E há alguns anos eu mudei, entrei para a Igreja. Parei de fumar. Parei de beber. E a minha mulher apareceu com um problema no joelho, sabe como é, doutora? E eu gosto dela, eu cuido dela, faço tudo por ela – especialmente agora que ela não consegue andar com facilidade. Mas a gente não tem mais tanta intimidade… e eu sou humano, sabe? Sou feito de carne e osso. Tenho minhas necessidades.” Pedro, agora, tem uma postura mais relaxada. Acho até que as fibras musculares no pescoço estão se soltando. E nos minutos seguintes, sua voz – agora já não tão plácida – narra um conflito interno como se ele se colocasse entre a cruz e a espada. Um relato carregado de simbolismos que me mostram a angústia de um ser dividido entre o querer e o poder: seu instinto e a moral.

Mas eu não tenho a presunção de querer dar respostas. Muito menos seria meu papel, como médica. “Entendo, Pedro. E o que você acha que pode fazer quanto a isso?” Do contrário, sirvo de espelho para que aquela pessoa à minha frente possa refletir seus pensamentos e, talvez pela primeira vez, verbalizar na primeira pessoa o que por semanas era apenas eco dentro da própria mente.

“Pois é, doutora. Não sei. Mas, com certeza, só de falar isso tudo pra você – posso te chamar de você? – eu já estou pensando em várias coisas que eu não teria pensado, se não tivesse falado isso com alguém.”

Já estamos novamente sentados em nossas respectivas cadeiras. Elas, que nunca são interceptadas pela frieza de uma mesa de consultório. Meus pacientes têm um canal de comunicação literalmente aberto, comigo. Eu estou tão próxima dele que poderia tocar sua mão, se sentisse a necessidade de um conforto.

“E olha que do jeito que eu estou falando com você aqui, agora, eu nunca falei com médico nenhum. Na verdade, eu nunca falei sobre isso com ninguém. Só com Deus.”

Seguimos a conversa, que fluiu com naturalidade dentro do consultório. A unidade de saúde, que tantas vezes é reconhecida como recinto hostil, ganhava ares de refúgio, tão sagrado quanto um templo.

Ao final da consulta, pactuamos algumas decisões em relação às demais queixas: os exames laboratoriais e a mancha no dorso, avaliadas com cuidado. Quanto à dor na nuca, prescrevo alguns sintomáticos e oriento calor local – mas Pedro logo me interpela: “acho que nem vou precisar de remédio, doutora. Parece que já ‘tá até melhorando”

Enquanto uma nova farmácia abre em cada esquina da cidade, comercializando medicamentos que prometem a cura de doenças reais e inventadas, cá dentro do meu consultório eu não consigo deixar de pensar que, às vezes, escutar continua sendo o melhor remédio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s