O homem das galinhas

por Frederico Cavalcante

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Dar uma má notícia nunca é algo fácil. Recebê-la é como sentir uma lâmina fria e invisível que lacera a alma de cima a baixo. Como médico de família, tento dar às pessoas um pouco de esperança nesse momento que, congelado no tempo, pode ser um divisor de águas na vida daqueles que acompanho. Certo dia tudo o que aprendi sobre dar uma má notícia seria posto à prova, mas de uma forma diferente.

Seu Manoel era, segundo o próprio, um homem robusto. Trabalhava em casa, no incomum oficio de abater galinhas para vender na feira da Manaus Moderna, lá perto da Igreja dos Remédios e às margens do Rio Negro. Diabético, estava sempre com a filha na Unidade Básica de Saúde, distribuindo sorrisos e fazendo piadas com a agente de saúde de sua área.

Em cada encontro nosso, sempre tentava negociar com ele o uso da insulina e a redução do hábito de consumir a famosa porronca, que nada mais é que o cigarro de palha bem comum do caboclo amazônico.

– Doutor, essa agulhada aí paralisou o rim do meu irmão! E o senhor sabe né, sou homem de Codajás e comedor de jaraqui com farinha, e tem que ser da ovinha. Nem me diga pra não comer minha farinha e nem quero deixar minha porronca de lado.

Nunca pensei em contrariar. Trabalhador como é, mesmo com 70 e poucos anos, apenas tentava explicar o mais simples que vinha à mente.

– Mas seu Manoel, a diabetes é um cupim comendo seu corpo por dentro e a insulina é como se fosse um inseticida. Quer tentar usá-la uma semaninha e contar como foi?

A resposta positiva foi uma pequena vitória para o meu ego. Se decidimos juntos ou se sugestionei, não sabia dizer. A preocupação do seu Manoel naquele dia era somente uma:

– Doutor, eu só quero poder acordar cedo para abater as minhas galinhas e vender na feira.

Não se entregar à nada que o impedisse de fazer o que fez a vida toda. Acordar 4h da manhã e cuidar dos assuntos da pequena granja em sua casa era o que importava a ele. Combinamos de nos reencontrar em uma semana, mas algo me incomodava: ele estava emagrecendo. A robustez comparável à de uma imponente samaúma, árvore de nossa região, já não estava ali.

Sete dias passaram-se. Olhei na tela do meu computador e nada do Seu Manoel. Nem da filha ou de ninguém de sua família. “Deve ter ficado na feira até mais tarde”, imaginei. Pelo resto da semana não teria mais nenhuma notícia. Até que, na sexta feira, estava quase entrando no carro para ir para casa quando fui interpelado por duas pessoas.

– Oi doutor, somos genros do seu Manoel. Ele sentiu uma dor muito grande no peito um dia desses e cuspiu sangue. Levamos no pronto socorro e depois encaminharam para o hospital para bater uma tomografia. O laudo tá aqui, me explicaram um monte de coisa lá mas eu não entendi direito e vim trazer para o senhor ver e me dizer algo. Nós estamos preocupados, pois falaram a palavra tumor.

– Entendi, vocês querem que eu veja, é isso? E os médicos do hospital?

– Doutor, eu pedi para não contarem nada para ele. Vai que é coisa séria e ele não resiste à notícia.

– Ele sabe que vocês vieram aqui com esse exame?

– Doutor, o Seu Manoel disse que médico só confia no senhor.

Eu me via diante de uma questão ética, mas também estava diante de familiares aflitos. Peguei o envelope e lá dizia: nódulo no pulmão, mais ou menos 7 centímetros de diâmetro, características de malignidade. O significado daquilo era claro.

– Vocês entendem o que isso pode significar? Não acham que ele deva saber?

– Doutor, se o Manoelzinho souber ele morre. Eu estou assustado. E se o senhor não fosse lá em casa falar com ele? Ele vai receber alta amanhã porque disseram que não tinha mais o que fazer, só esperar o fim.

Senti que segurava nas mãos o cabo do punhal com aquela lâmina fria. Confiavam em mim, que poderia ser capaz de dizer, com alguma ternura, que o fim se aproximava .

Fui visitá-lo junto da agente comunitária de saúde e uma das minhas técnicas de enfermagem.  Sua casa ficava em um terreno alto, no qual havia um grande galpão central rodeado pelas casas dos filhos. No fundo do terreno ficava a pequena granja, onde o seu Manoel tinha seu local de trabalho. Aquele era seu santuário, sua razão e motivação. Era o que o fazia sentir-se vivo.

O galpão ficava em um terreno alto e de lá eu conseguia ver as águas escuras do Rio Negro, já um pouco baixas devido à vazante comum daquela época do ano. Talvez a natureza me inspirasse em escolher bem as palavras que estava a dizer para o Manoel.

O calor naquela visita domiciliar era insuportável. Era quase 11 da manhã e, se você já esteve em baixas latitudes como na Amazônia no mês de outubro sabe que a sensação é haver um sol para cada um. Mesmo com o calor do verão amazônico, eu me sentia gelado por dentro.

Chegando lá ele estava sentado em uma cadeira de balanço, rindo baixo, ainda que hesitante e sem o mesmo vigor de outrora. Suas palavras e seu raciocínio pareciam claudicar, como ocorre com algumas pessoas que, ao percebem que se atingiu um ponto sem volta no curso de uma doença, começam a se retrair.

Vários filhos e filhas dele estavam lá. Sabiam da verdade mas não queriam ser os arautos do fim da vida do Manoel. Respirei fundo e comecei.

– Bom dia, Seu Manoel! Como vai? Vim aqui te ver.

– Err…ehhh…humm…oi meu doutor…me desculpe estar assim…no hospital tem muita gente boa mas eu tava com saudade daqui. Era o que me doía mais, não matar minhas galinhas nem ir para a feira ver os amigos.

– Eu te entendo. Não precisamos falar do hospital se você não quiser. Eu vim aqui somente saber de você.

– Doutor, me disseram que to com problema de pulmão. Se tirar o pulmão não resolve? Tenho outro pulmão! Tirasse hoje, na semana que vem estava pronto para voltar pro trabalho.

Era a hora. Precisava dizer que seu problema era um câncer de pulmão, mas as coisas seguiriam um outro caminho.

–  Manoel, eu sei que você sabe que deu um problema no seu pulmão. E você sabe que você sempre fumou bastante não é? Você tem notado que você tem emagrecido…isso não te preocupa não?

– Doutor, só o que me preocupa é não poder ir acordar quatro da manhã e ir matar minhas galinhas. Se não abater pelo menos cem não vale nem a pena. E uma coisa mais: sei que o senhor viu meu exame, mas eu não quero saber o que deu, não quero que o senhor me conte nada…o senhor sabe a verdade e veio pra me falar…mas não quero saber. A minha hora só quem sabe é Deus, e até lá se tiver algo que me impeça de matar minhas galinhas é melhor que eu nem saiba.

Senti-me desconcertado. A família esperava que eu comunicasse a verdade ao seu patriarca, mas ele não queria saber. Algo que impedisse de exercer seu ofício era pior que a morte.

– Se eu não puder ser útil e der trabalho pros vivos é melhor morrer logo. Por isso meu doutor eu não quero saber o que eu tenho. Nem me conte. Se o senhor falar melhor o senhor ir embora com essas meninas.

Havia treinado, praticado, lido os protocolos mas nenhum deles me preparara para a resposta do Manoel. Todos querem saber a verdade, mas ele não!

– Entendi, seu Manoel. De repente talvez nem seja bom saber de algo que possa mudar sua vida, pois ficamos com medo, não é?

– É meu doutorzinho, e só o que me da medo é ser um homem sem valor, sem poder trabalhar.

Ele tinha fechado a porta definitivamente para aquele assunto. Então tentei pela última vez.

– O senhor tem muito valor e sempre vai ter. Olha seus filhos aqui né? Tem alguém que está faltando? Quem sabe esse não é o momento de ver algum parente, algum amigo, resolver as pendências que existirem…afinal temos que deixar tudo preparado, não é?

– É meu doutor, todos que eu amo estão aqui. Estou em dias com tudo, não tenho pendência com ninguém, só quem pode me cobrar é Deus e sei que isso está para acontecer.

A filha mais velha ao meu lado chorava em silêncio. Todos ali tiveram ciência de que o Manoel sabia o que estava acontecendo. Minha agente de saúde estava com as mãos na boca e olhos marejados. Dei um abraço no Manoel, carinhoso, e ele me retribuiu me dando um quilo de pirarucu seco “para suas meninas da UBS fazerem um pirarucu de casaca”, prato típico do Amazonas. Coloquei-me à disposição dele e de sua família para o que precisasse.

Passaram-se alguns dias, até que a agente de saúde disse que o Manoel havia, enfim, partido ao encontro do Pai. Não contive as lágrimas ao dirigir de volta para casa. Na manhã seguinte uma de suas filhas apareceu, agradecendo todo o carinho a atenção durante todo esse tempo.

– Doutor,ele sabia que tinha problema sério de saúde, mas não queria saber o que era. Se fosse câncer, derrame, infarto…no mesmo dia tentamos nos encher de coragem para dizer depois que o senhor saiu de lá mas ele foi direto: “EU NÃO QUERO SABER O QUE EU TENHO!”.

E continuou:

– Aí ele dormiu e acordou 4 da manhã, dei fé ele estava indo ver as galinhas. Não abateu nenhuma não. Fui ficar lá com ele e só o que ele fez foi agradecer, pois as penosas das galinhas lhe permitiram sustentar todos nós desde pequenos. Rezou um pai nosso e voltou para dentro de casa, e naquele dia ele estava tranquilo. Senti que ele estava pronto para fazer a passagem, tanto que morreu dormindo, em paz.

Paz que também eu sentia. Às vezes, como médicos, sentimos uma necessidade imperiosa em falar para alguém que sua expectativa de vida não pode mais ser contada em anos, no intuito de, imaginem, ajudá-lo a tentar se preparar.

Quanta pretensão. O Manoel me ensinou naquele tempo que, mais do que nunca, é necessário estar sem pendências e sem assuntos para serem resolvidos em vida. Uma vez que o corpo se vai, o remorso fica, doloroso e arrastado, ocupando seu lugar como parceiro inseparável da culpa.

Seu Manoel não tinha remorso, nem culpa. Definitivamente partiu deste plano em paz com a família, com sua consciência e com Deus. Saudosos ficaram todos, esposa, filhos, filhas, netos e claro, as suas galinhas.

Frederico Cavalcante é médico de família e comunidade e supervisor do PRMMFC SEMSA/UEA

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