Vida Morte Vida

por Natália Pedó

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Sexta-feira de tarde. Dia tranquilo na unidade de saúde hoje. Consultas agendadas. A enfermeira não está. A recepcionista me passa a familiar de uma senhora de 101 anos que pede atestado. Conheci a dona Julieta em uma consulta quando veio trazida pela filha, Lourdes, e por uma amiga da família, ambas solicitando fórmula nutricional para ela. 101 anos: nenhuma comorbidade, apenas mobilidade reduzida fazendo por isso uso de cadeira de rodas. A família: buscando alguma forma de intervir nos desfechos da vida para evitar a tão temida morte.

Penso: vai ser rápido, vou conversar com ela entre uma consulta e outra, já faço o atestado, e logo me libero para dar continuidade às consultas do dia. Doce ilusão. A medicina de família insiste em surpreender a cada dia com suas histórias de vida, suas histórias de morte, suas vivências tão únicas e singulares.

Chamo dona Lourdes no consultório para que me explique exatamente que tipo de atestado necessita. Deixo a porta aberta porque, sim, seria algo rápido, só um atestado. Enquanto faço o atestado dona Lourdes vai se sentindo à vontade em falar sobre a mãe. E o discurso de que a mãe está ótima sem nenhuma queixa em algum momento abre espaço para as suas dificuldades, compreensíveis para uma senhora de tantos anos já vividos. Neste momento, percebo no semblante da filha a negação. Penso comigo: não pergunta agora, é só uma consulta rápida, deixa no plano para algum outro momento, agora vai demorar e não há tempo. Mas, não consigo me segurar. Nem poderia. Sei que aquele momento é precioso. Que é o momento certo de adentrar esse espaço de vida e morte. Da dona Lourdes. Da dona Julieta. Pergunto, então, decidida: “Dona Lourdes, como é para a senhora lidar com a morte da sua mãe?”. Olho nos seus olhos marejados. E nesse momento o silêncio toma conta do consultório. Um silêncio de profunda introspecção e abertura. Fecho a porta. E a revelação, que já estava ali para ser expressada, e que bastava ser acessada, deságua: “Ah doutora, está sendo muito difícil para mim. Não consigo imaginar a minha vida sem a mãe. São 25 anos cuidando dela desde que meu pai faleceu. E 3 anos desde que coloquei a cama dela ao lado da minha no meu quarto (NOSSA! Não consigo, naquele instante, imaginar essa situação e como ela conseguia viver assim)”. Abro mais espaço para sua fala emocionada. Mais algumas perguntas e olhares. Quando, então, ela diz: “Sabe doutora, não sei como vai ser quando a mãe se for. Às vezes eu acordo à noite e ela está fazendo carinho em mim.”

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Naquele momento eu compreendo. Compreendo a dor, compreendo a negação, compreendo a cama ao lado da sua há 3 anos: o Amor. Só o amor é capaz de suportar tudo isso. E, enquanto escrevo, choro aquilo que não consegui na presença da dona Lourdes. Choro já a saudades desse carinho e cuidado, o amor por essa mãe que com 101 anos expressa seu afeto dessa forma tão sincera, pura e doce. Sim, Dona Lourdes, eu também não sei como vai ser viver sem essa mãe.

Nestes momentos não sei se a medicina de família é melhor para os pacientes ou para mim, que me vejo neles, nas suas histórias, nas suas angustias e também felicidades. Obrigada Dona Lourdes e Dona Julieta. Hoje vou olhar para a minha mãe e também dizer o quanto a amo.

Natália é MFC em Passo Fundo / Rio Grande do Sul.

Um comentário sobre “Vida Morte Vida

  1. Natália, que lindo relato. Me vi nesse filha e na saudade que eu sinto da minha mãe, há quatro anos não mais nesse plano. Sim, dona Lourdes, a gente consegue seguir vivendo, talvez um pouco mais tristes, mas a gente segue.

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