Noite de UTI

por Karen Borges

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Eu sempre tive medo da UTI. Como parente de paciente, pra mim parecia que na porta dela sempre estava a dona Morte esperando com sua túnica preta e cajado, pronta pra levar aqueles que amamos, mesmo que externamente eu repetisse, freneticamente, pra me consolar: “Nem todo paciente morrendo está lá”. Diariamente, a espera interminável pela enfermeira que vem, família por família, liberando cada paciente na hora da visita. Nos olhos de cada um, o medo silencioso dela chegar e falar que não podemos entrar por algum motivo…

Finalmente chegou a hora de entrar como profissional de saúde em formação, ignorando a conhecida dona Morte que me acenava da entrada. Mesmo não tendo nenhum conhecido ali, aquele corredor silencioso e pessoas lutando pra sobreviver me faziam sentir a menor pessoa do mundo. À primeira vista, os aparelhos e tubos de respiração me soaram como a mais complexa equação, sem saber nem por onde começar. Sem exageros…

Como aluna, minha função era só acompanhar e auxiliar nas coisas mais simples. Então, nos momentos em que ninguém precisava de mim, só me restava andar de leito em leito, olhando o monitor, onde já conseguia entender onde mostravam os sinais vitais, e torcer para que se mantivessem estáveis. Um dos pacientes não estava se recuperando após uma grande cirurgia, precisando de um procedimento invasivo que faria seu coração bater do jeito correto. Com olhos curiosos, fiquei acompanhando, de braços cruzados, a uma certa distância, pelo medo de esquecer deles e esbarrar em algum fio essencial pra vida de alguém. Já pensou? “Aluna de medicina quase mata paciente ao tropeçar no respirador artificial da UTI.” Não, obrigada. Prefiro continuar no anonimato.

Depois de um bom tempo, e repetindo mentalmente um “não morre, não morre, não morre”, o procedimento acabou e não pude conter um “iiiisso” quando vi aqueles batimentos subindo pra oitenta e a pressão normalizando. Depois de um tempo, parei ao lado do senhor e disse baixinho: “Seja firme, meu amigo! Tem gente em casa te esperando.”

Nesse meio tempo, chegou a hora da visita, e me vi naquelas pessoas entrando com olhinhos aflitos e apressadas. Do meu lado, uma senhora muito educada: “poxa, hoje ele não quis abrir os olhos!”. Ouvindo aquilo, não dava pra não me intrometer: “Ah, mas 1 hora atrás ele estava com os olhos bem abertos”! Um sorriso apareceu, seguido de um suspiro profundo. Algumas horas depois, esse mesmo paciente abriu os olhos de novo e só consegui dizer: “Meu amigo! Sua família teria ficado bem feliz de te ver assim”. Se ele escutou ou não, não sei… Porém, há tantos mistérios entre o céu e a terra que prefiro pensar que todos ali nos escutavam de alguma forma, e um mínimo de esperança poderia fazer diferença.

No final do plantão, olhei bem pra dona morte que permanecia ali na porta, dei um sorrisinho maroto e pensei comigo: “Hoje não, colega”! Assim, voltei pra casa sem virar manchete de jornal no meu primeiro dia.

Autora: Karen C de Carvalho Borges, 2019.
karenccarvalho@yahoo.com.br

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