Era só um menino

por Renan Scheidegger*

Quatorze anos de idade que mais pareciam 10 ou 9 ou até menos. A baixa estatura e a magreza lhe imprimiam um ar de fragilidade, como se corresse o risco de quebrar ao ser tocado; o olhar vazio dava a impressão de que seu corpo não possuía alma, era sombrio.

Era a primeira vez que eu o via. O pai, eu já conhecia; temos uma longa história de início conflitante e discordante que evoluiu para uma relação de muita cordialidade e carinho ao longo dos anos. Comecei o atendimento como de praxe, perguntando no quê eu poderia ajudar, apesar de já estar ciente do motivo da consulta por ter conversado sobre essa família em algumas reuniões de equipe. Começou então um jogo de empurra entre os dois:

– Fala você, pai.

– Eu não. Fala você. Você pediu pra vir aqui.

– Ah, não. Não quero. Fala você.

– Mas a consulta é sua!

– Ai, fala aí…

– São as drogas, doutor! Tá se acabando nas drogas!!

Não consegui fingir surpresa, mas minha inquietação ficou evidente; as pernas chacoalhavam, as mãos iam ao rosto roçando a barba, os olhos percorriam todo o consultório mas não conseguiam ir de encontro aos daquele menino.

Eu havia ensaiado perguntas estratégicas, técnicas de abordagem, entrevista motivacional… Mas sentia que tudo tinha ido por água abaixo naquele momento. Eu me sentia angustiado e completamente despreparado para aquilo. Era só um menino.

– E como tá sendo isso, Felipe? Tá usando mesmo? Você tem usado todos os dias ou só experimentou e não usa mais?

– Eu uso. Direto.

– Há quanto tempo?

– Eu comecei com 13 anos.

– E o que você usa?

– Baseado. Pedra. Pó. Tudo.

As respostas eram diretas, sem qualquer hesitação. Seu olhar era duro. Me encarava, me olhava nos olhos. Eu me sentia intimidado por aquele menino.

– E por que você acha que começou a usar drogas, Felipe? Foi por curiosidade, foi porque se sentia triste, se sentia sozinho…?

– Não sei. Comecei a usar, só.

– Entendi… E como você faz pra conseguir dinheiro pra comprar droga?

– Ah… A gente consegue, né.

– Consegue como? Você já roubou pra conseguir comprar droga?

– Já.

– Você já precisou vender ou entregar droga?

– Já.

Mas é só um menino. Isso ecoava em looping dentro da minha cabeça. Para mim era uma violência fazer essas perguntas àquele menino. Sentia como se o estivesse agredindo e até infringindo uma lei. Era só um menino.

– E na escola, como tá, Felipe?

– Não tá. Parei de ir pra escola desde a terceira série.

– Entendi… E você aprendeu a ler? Sabe escrever?

– Não.

– Tá… E foi você que pediu ao seu pai pra te trazer na consulta?

– Foi.

– Bom… Se você mesmo tá pedindo ajuda, espontaneamente, isso já é um passo muito importante. Por que você decidiu pedir ajuda?

– Porque eu quero parar de usar. Não quero mais ficar louco, dormir fora de casa um monte de noite, deixar meu pai preocupado… Eu não quero que meu pai vá pra cadeia por causa de mim… Eu não aguento mais essa vida.

“Eu não aguento mais essa vida”. Senti como se algo partisse dentro do meu peito. Meu Deus… Um menino. Era só um menino. Eu não conseguia disfarçar meu incômodo e minha inquietação. Estava indignado. Era só um menino.

Tentei me ajustar, me recompor.

Comecei explicando que a prefeitura dispõe de centros de tratamento específicos para atendimento de casos como o dele e perguntei se ele aceitaria ser encaminhado para se tratar. A resposta foi afirmativa, sem hesitação.

Expliquei que a UBS tinha alguns profissionais que também poderiam ajudar em seu caso e perguntei se eu poderia conversar sobre ele com esses outros colegas para tentarmos pensar em mais formas de ajudá-lo. A resposta foi sim.

Ressaltei que a questão da escola era muito importante e que, não agora, mas em algum momento falaríamos sobre isso para programar a sua volta aos estudos. Ele concordou.

Por fim, disse que eu queria ver alguns exames de sangue – o que não passava de uma desculpa esfarrapada para que eu já deixasse agendada uma consulta de retorno comigo em alguns dias a fim de conversar mais, fortalecer nosso vínculo e ir ganhando sua confiança. Ele consentiu.

Ao final, com tudo estabelecido e planejado, eu ainda não me sentia seguro do que havíamos conversado. Fiquei na dúvida, me perguntando se aquele menino realmente compareceria ao centro especializado, se realmente estaria motivado o suficiente, se realmente voltaria aos retornos comigo… Sua postura distante, o olhar endurecido e as palavras curtas não haviam me deixado muito confiante. Mas concluí que toda essa ansiedade e insegurança não nos ajudariam em nada. Eu, enquanto médico, deveria acreditar naquela família, assim como eles depositaram sua confiança e suas expectativas naquele momento comigo.

Enfim, me despedi dizendo que havia sido um prazer conhecê-lo, que estava muito feliz por sua decisão de pedir ajuda, me coloquei à disposição e estendi minha mão muito formalmente para cumprimentar aquele menino.

Fui, então, surpreendido muito rapidamente (quase que como um golpe, eu diria) com um abraço apertado e longo. Longo o suficiente para que eu conseguisse olhar, muito surpreso e sem reação, para o pai, que agora sorria pra mim tão surpreso quanto eu. E tenho que ressaltar que vi em seus olhos um brilho que nunca consegui ver em anos de convivência. Esse abraço terminou com um beijo no meu ombro. Depois se virou e se retirou da sala, sem nem mesmo dizer tchau.

Aquele pós-consulta – ou melhor, aquele pós-abraço – foi como um céu nublado se convertendo em um dia ensolarado pra mim. Precisei de alguns minutos para me recompor.

Sim… Ele é só um menino. ❤️

[DADOS DO PACIENTE E DA CONSULTA ALTERADOS PARA MANUTENÇÃO DO SIGILO MÉDICO]

*Meu nome é Renan, atuo como médico na ESF há 6 anos, na mesma equipe. Sempre compartilho alguns casos interessantes no Facebook (perfil: Renan Rsc)

=)

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