O que faltava

por Carolina Reigada

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Hoje quero contar sobre uma vitória.

Acompanho uma família com uma bebê recém-nascida. Não passamos pelo pré-natal juntas, mas nos vemos desde uns 10 dias de vida da bebê. Ainda na maternidade, alguns problemas de pega fizeram uma bela fissura em um dos mamilos, por isso, a bebê estava mamando só em um peito, porque o outro doía muito. E o peso da bebê…deixava a desejar.

“Não, calma, vamos conseguir!”

Coloca ela pra mamar, ajeita a pega, orienta sucção, não deixa dormir no peito, espera esvaziar e…sim, tem que mamar no peito com fissura, também…e volta pra pesar em uma semana.

Voltou em uma semana, o peso ainda ruim, a fissura melhorando, o outro peito sem fissuras, mas…ainda não mamava o peito machucado. O leite, esse abundava. A mãe pensava em doar pro banco de leite. Eu: não!!! Esse leite por enquanto tem que ir pra bebê! Orienta de novo, reforça a livre demanda, reforça esvaziar a mama, não dormir mamando, falei como se não tivesse falado tudo isso há uma semana.

Voltou em mais uma semana, chorosa. Achou que não ia conseguir. Comprou fórmula, tentou dar…a bebê vomitou tudo. Vomitou tanto que achou que ela ia engasgar. A essa hora, eu havia envolvido toda a equipe, que estava estimulada a fazer essa amamentação funcionar! A enfermeira orientou que não era bom confundir os bicos com a mamadeira e que era essencial dar os dois peitos (afinal, a fissura estava quase boa!), a técnica pesava com cuidado e contava os gramas na balança, e eu pensando: tem leite, tem peito, tem pega, tem boa sucção…o que falta?

Reorientamos os pais, mas apreensivas. É uma das sinas do profissional de saúde. Até quando eu confio na capacidade daquelas pessoas de se cuidar? De cuidar do outro? Até onde vai a minha responsabilidade?

Eis que vi o nome dela para consultar. Expectativa total. Havia me decidido: se o peso não melhorar, vamos precisar complementar. Entrou a mãe, mais altiva, mais sorridente, com seu pequeno pedaço de si no colo.

Quase que com medo, abro o cartão da criança para ver o ganho de peso. Vitória. Não acreditei. Mais de um quilo em 10 dias??? Olhei embasbacada para a mãe. Ela sorriu.

“Deu fórmula?”. A mãe, orgulhosa: “não, só peito. Os dois peitos.”

Eu sorri por dentro e por fora. Ela riu. Eu abri mais o sorriso.

(mais tarde, quando ela saiu da sala, eu alonguei a comemoração pulando e dançando no corredor e na sala de acolhimento, com as meninas da equipe, mas foi rapidinho, porque ainda tinha gente esperando pra consultar. Mas voltando à consulta):

“Inclusive, minha única pergunta hoje é se tem problema ela ter essa papa que cobre o pescoço”

“Não, não tem problema. É coisa de bebê gordinho”.

Não respondi a minha pergunta, afinal. Tinha leite, pega, sucção, peito…não sei o que faltava. Mas sei que ela achou. Elas acharam. E o que quer que tenham encontrado, deu pra ver no olhar, fez toda a diferença do mundo.

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