Vinícius

por Marina Galhardi

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Condenado por sua tristeza, Vinícius era um adolescente que, como tantos outros, veio consultar porque sua mãe o trouxe. A mãe queria falar comigo antes que eu chamasse o filho, mas fingi que não entendi e chamei os dois. A mãe falava trêmula dos problemas do filho, ele era muito triste e com os últimos acontecimentos – a morte da cachorrinha e de um vizinho – achava que ele corria risco de acabar com a própria vida. O guri ficou quieto boa parte do tempo. Ela contava de um acompanhamento anterior com psicólogo e de uma tristeza de longos anos e uma afinidade com o tema da morte que a preocupavam. Deixei que esvaziasse e passei para ele: o que você acha do que sua mãe disse?

Não cabe todo o diálogo nem desse momento nem das outras consultas que se seguiram. Foram muitos.

Mas a verdade? O guri era um dos mais lúcidos que eu já vi. A afinidade com o tema da morte era porque não queria que sua vida fosse vã. Queria um sentido. Mas falar de sentido da vida no seu meio, de deixar um legado para o mundo e de que a vida no momento não tinha sentido era quase um crime. Não se pode mais ser existencialista. Se fosse noutras épocas seria artista.

‘Eu brinco com os amigos, rio, mas parece falso, depois eu fico mais triste, como se tivesse que me esforçar muito para ficar feliz’

A mãe achava que ele precisava de medicação. Eu questiono para ele. Ele me diz, ‘ah, eu acho que sim’ e o que você espera que o remédio vai fazer? ‘queria um remédio para mudar meus pensamentos’. Bom, ficou fácil daí. Não, a medicação não vai mudar seus pensamentos.

Talvez quem não estivesse aguentando um filho existencialista era ela.

O menino, de cabelo azul, usava palavras que não eu ouvira de ninguém daquela idade naquela comunidade. Gostaria de estudar a mente para entender a sua e seus pensamentos. Gostaria de ter uma família. Escrevia e compunha músicas.

Contou, em consulta sem a mãe, que muitas vezes discordava dela e quando o fazia, com calma, sem brigas, ela não aceitava. Com o tempo, parou de falar o que pensava e se fechou mais. Sentia culpa. Muita culpa. De preocupar a mãe, de atrapalhar a vida das pessoas…

Ele não tinha espaço para ser ele mesmo nem com amigos, com quem os assuntos eram superficiais, nem com a mãe. Sua maior admiração era pela avó, que tinha o amor mais puro que ele já vira. Nunca criticava ou brigava, amava mesmo discordando. Foi a coisa mais bonita que ouvi em muito tempo.

Ele que não se adequava no mundo, foi trazido a consulta médica para conseguir um remédio, que mudasse seus pensamentos para que se tornasse normal. E o que era o normal? Um jovem sempre sorridente e animado com assuntos superficiais e que sempre concordasse com a mãe?

Um dos jovens mais inteligentes com quem conversei acreditava estar doente.

Não, querido. O mundo é que está doente. Você é responsável apenas pelas suas ações, mas não pelas reações dos outros. Siga e encontre o sentido para a sua vida sendo exatamente quem você é, porque é sendo quem você é que você pode mudar o mundo.

 

*Figura inspirada em “O estrangeiro”, de Albert Camus

Um comentário sobre “Vinícius

  1. Que pressão essa nova geração sente em “deixar um legado no mundo”, não? Parece que todo mundo precisa ser grande, extraordinário. Nosso legado no mundo não pode mais ser uma árvore plantada? Uma música composta? O Amor que a gente deixa?…
    Excesso de lucidez, num mundo cheio de mazelas, também pode ser sofrimento. Nesse caso, vale aquela sugestão: loucure-se!
    Belo texto. Gostei do olhar sobre a queixa acolhida com tanto cuidado, Marina!

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