Probo

por Ricardo Mannato

“Hoje a visita vai ser em Bonsucesso. Precisamos entregar o encaminhamento de consulta oftalmológica para o senhor Zé Maria.” Uma tarefa simples e cotidiana para a Estratégia de Saúde da Família, mas que ganha uma grande complexidade para a equipe do Consultório na Rua: onde está o usuário?

Nossa odisséia iniciou-se dando voltas e voltas pelo entorno do supermercado central do bairro, local de referência que ele registrou para a equipe. Perguntamos a vendedores ambulantes e bancas de jornal e procuramos os locais de ponto de apoio aos moradores de rua da redondeza. No entanto, ninguém parecia conhecer o cidadão. Eram onze horas da manhã e o local estava a todo vapor: transeuntes entrando e saindo de lojas de roupas e utensílios, senhores jogando damas e cartas na praça, filas em bancos e trabalhadores  comendo em bares e lanchonetes. Em meio a toda essa agitação, voltando os olhos para o chão, dispersos pelos cantos, esquinas e marquises, encontravam-se homens e mulheres, deitados em caixas de papelão, envoltos em cobertores finos e sujos, dormindo feito pedra; pedras no caminho.

O olhar, treinado a suprimi-los, abriu-se e, em choque, pôde ver. Acompanhei a médica preceptora da equipe e seguindo seu exemplo, abordamos um a um, apresentando a equipe, ofertando nosso serviço e indagando sobre o paradeiro do paciente em questão. “Bom dia, o senhor conhece o Zé Maria? Um morador de rua, branco, uns 70 anos, anda meio torto”, perguntei ao idoso negro que recostava-se na loja de tintas fechada, sentado em cima de uma cama de papelão e cobertores, comendo sua quentinha.

“De nome assim não. Tem algum apelido? Na rua a gente só se chama por apelido.
Mas conheço todo mundo dessa região e não sei quem é esse cara não.”

“Tá difícil achar ele! Agradeço de todo modo. Nós somos do Consultório na Rua, equipe de saúde que atende moradores de rua com médica, psicóloga, enfermeira, assistente social e agentes territoriais. Precisa da gente para alguma coisa?” “De saúde eu até que tô bem, não tenho nada não. Meu problema é que meus documentos que não saem. Já tô há três meses falando com os assistentes sociais do Conselho para retirar minha certidão de nascimento e carteira de trabalho. Me ofereceram uma vaga de trabalho aqui num armazém, carregando e descarregando os caminhões, tô só dependendo disso.”

“Dá um pulo lá na clínica essa semana, nossa assistente social conversa melhor com o senhor para agilizar isso aí.”

“Eu agradeço muito, difícil ver gente boa como vocês, a maior parte das pessoas tem muito preconceito, passa direto. Você sabe qual é a diferença entre morador de rua e quem mora na rua? Morador de rua é aquele cara que tem até a opção de ter uma casa, mas prefere ficar usando droga e bebendo cachaça na rua. Eu moro na rua, tô aqui  porque não tive opção. Não gosto do cheiro de cigarro e nem cerveja eu bebo. Trabalho segunda, quarta e sexta nas feiras daqui do bairro e nos finais de semana sou flanelinha do baile funk. Aqui todo mundo me conhece, me dá roupa, comida, água. Preciso só dessa saída para arranjar um emprego e alugar um espacinho pra mim. Olhe bem, vocês sabem o que é probo?”
“Probo? Nunca ouvi essa palavra”, retruquei.
“Vocês têm ensino superior e eu que moro na rua que vou ensinar isso para vocês?”, divertiu-se com a ideia. “Eu sou um cara probo. Aprendi isso quando estava no exército e desde então uso essa palavra para me definir. Probo.”

Probo
adjetivo
1. de caráter íntegro; honrado, honesto, reto.

 

Ricardo Mannato faz medicina na UFRJ e dividiu conosco esse causo que viveu em seu internato rotatório em MFC.

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