O puxador de sonhos

por Alfredo de Oliveira Neto

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Não era São João. Quando ultrapassei a porta pela primeira vez, o lençol o embalsamava. Em poucas circunstâncias, ele cedia, arreando a barra do lençol para debaixo dos olhos. Ele estava vivo, mas se fazia de morto.

José era o paciente mais difícil para a equipe de enfermagem do 9º andar do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco: recusava medicação, diálogo, comida e procedimentos. É daqueles que causa rebuliço de vozes pelo corredor:

  • José hoje tá que tá!
  • Sabe de uma coisa? Se quiser morrer, que morra!
  • Bicho cabuloso, se não quer ficar bom, dê a vaga pra outro…

Em nosso primeiro encontro, não me lembro ter dito mais de duas frases, recheamos nosso espaço de silêncio em aproximadamente uma hora. Eu sentado, ele se fingindo de morto, embrulhado da cabeça a baixo. No final mandei um “até mais ver”. Na outra semana, também numa segunda- feira e num horário semelhante estava eu, a cadeira, o embalsamado e um violão como um novo visitante. Falei menos ainda, no entanto o silêncio foi quebrado por alguns acordes desmembrados. Às vezes parecia ir na linha de uma canção, outros se desgarravam, talvez num impulso de começar uma outra vida. O lençol escorregou para debaixo dos olhos, o tempo da visita terminou, outro até mais ver. Ao sair da enfermaria, onde ele estava “sepultado”, apertei o botão do elevador e olhei meio desconfiado para o instrumento o qual carregava.

Estava no início do 3º ano de medicina e pertencia a um grupo recém-fundado, “O Caminho”, que já pintava umas fachadas estranhas, porém interessantes aos olhos alheios na velha estrutura do HC. Eram grupos pequenos de estudantes que iam visitar toda segunda à tarde pacientes que, antes do primeiro encontro, nunca haviam se visto. Um projeto de extensão universitária. Havia música, teatro e até um espaço para se assistir a filmes, escolhidos pelos próprios pacientes, chamado “cine-enfermaria”. E ainda se discutia notícias nacionais e internacionais através de jornais e revistas novas. Como eu era um dos veteranos do grupo, as auxiliares de enfermagem deste 9º andar, que eram parceiras do projeto, me incubiram da tarefa mais difícil: “dar um jeito em José”. Uma estudante desse grupo já havia tentado, mas havia se frustrado em lágrimas.

Conforme fazíamos, antes da primeira visita não recorri ao prontuário para saber de sua história clínica, o que era um dos objetivos do projeto: despir-se do jaleco, abrir-se da defesa da impessoalidade.

Apenas por volta do terceiro ou quarto encontro, descobri que José, um jovem de trinta e algo, havia sido vítima de uma tragédia, já banalizada pela imprensa: teve sua bicicleta roubada e um projétil de arma de fogo lhe roubou o prazer de andar com as próprias pernas. Naquela hora vi todo um errado que abraçava o mundo, um cinto apertado de erros. O roubo, a necessidade, o morar na Linha do Tiro, seres humanos que ganharam dinheiro na fabricação e venda daquele revolver e daquela bala, ter acontecido com quem só tem as pernas como única opção de meio de transporte, o estreitamento do caminho, a esperança encurralada com o coração na boca. Hoje percebo que o errado, o certo e a verdade obedecem a um outro mecanismo de apreender a realidade, no qual, estou ou estamos bem aquém de conhecer.

Por trás da tragédia, havia um palco com outras possibilidades sobre o qual me apoiei e compreendi o porquê a música era um eficiente instrumento de comunicação entre nós dois. José havia passado grande parte da vida num posto social que o destacava perante seus vizinhos. Era “puxador de quadrilha”, daquelas estilizadas com visibilidade na imprensa durante o mês de junho. Coordenava e planejava a coreografia, as cores dos vestidos e das camisas, escolhia as músicas. O baião e o forró eram seus gêneros musicais de predileção. Mobilizava a comunidade onde morava, injetava em bolus ampolas de vida no terreno da violência. Era, na verdade, um puxador de sonhos.

No terceiro ou quarto encontro, já trocávamos algumas palavras e a barra do lençol já se encontrava na linha do tórax. Depois disso, não lembro em qual visita, propus que coordenássemos dentro da enfermaria uma quadrilha fora de época. Não sei bem se sua expressão na hora era definida, mas se percebia que ali estava se iniciando um duelo entre o possível e o improvável. Pois o impossível já se vinha diluindo desde o silêncio, quando José se fingia de morto.

As cinco semanas seguintes foram de puro trabalho: pesquisa da origem das quadrilhas (descobrimos que os matutos dançavam passos de nobres), escolha do repertório, elaboração dos diálogos do padre, noivos, delegado, dos sogros, de todo aquele teatro. Acho que foi a primeira vez que o vi sorrir. Chegavam as auxiliares de enfermagem e elas me agradeciam. José não só estava se alimentando melhor, como também estava colaborativo com as medicações e os cuidados de higiene. Eu levava toda semana um microsystem e alguns cds de forró e baião. Ouvíamos, discutíamos sobre as letras e acabamos elegendo o repertório em cima de uma coletânea de Dominguinhos. Por algum tempo, o parceiro do leito ao lado, eram dois nessa enfermaria, nos ajudava, pois, além de gostar das canções, havia cantado na noite. Lembro-me de uma tarde notável um pouco antes da quadrilha. A noite já caía e com pandeiros e violão, auxiliado por outros parceiros do projeto, fizemos uma mini-serenata. Acabamos registrando tudo em vídeo. Tocávamos côco, José já sentado com o encosto da cama levantado, a barra do lençol nos pés, batia palmas, remexia o tronco e dava gargalhadas.

Voltei à minha casa espantado com o poder da música. A depender de sua manipulação, um instrumento tanto do cuidado quanto do descuido. Faz as pessoas sentirem saudade, medo, força para viver, melancolia. As cornetas que ajudam nos campos de batalha o homem matar um desconhecido, o ilú do candomblé que favorece o transe e convida as entidades a participarem da dança, o hino do time que amolece os corações mais endurecidos, a música do casal que acabou de completar bodas de ouro, e do outro, no mesmo baile, que acabou de se apaixonar. A música da paixão, a música da guerra, a música da evocação dos deuses. Às vezes a linguagem do próprio divino, do religare.

Em outra circunstância, ele me deu a impressão de que ia desisitir, como se percebesse que aquilo não passava de uma palhaçada. Estava na cara que não daria para ele voltar ao que era e que, de volta à comunidade, terra onde qualquer dificuldade a mais é encosto e, como, num navio afundando, o corpo inútil que tem um certo peso é jogado ao mar, ele temia ser escanteado quando da sua volta. Sem carro e nem às vezes micro-ônibus para transportar a quadrilha para os ensaios e apresentações já era difícil, imagina agora sem pernas em cima de uma cadeira de rodas? E se conseguir uma, pois até agora ninguém havia se pronunciado… Era melhor ter morrido, imaginava eu através dele quando o via assim acabrunhado.

Não era São João, mas o hall da enfermaria enfeitava-se de bandeirinhas e balões e era palco do desfile das matutas dos mais coloridos trajes. Chapéus de palha repousavam junto aos pés-de-moleque e pamonhas em cima de uma mesa. Apareciam novos cavanhaques e bigodes a lápis de olho. Haviam sido convidados pacientes, acompanhantes e profissionais não só daquele andar, mas também de outros. Chegavam em cadeiras de roda, sustentando os soros, outros carregavam bolsas das enterostomias. Ali abatidos, acolá se mantendo em pé, aqui um que acabou de receber alta e comemora a ida em alto estilo. José, já portando um desses chapéus, engatilha o microfone e convida os casais para um passeio na roça. Havíamos ensaiado umas duas vezes, eu ali servindo de “assistente de direção” fazia a ponte da comunicação, pois ele se aborrecia com os passos em falso e a falta de sincronia. No dia não se deu para perceber deslizes. Ele ia à toda com a cadeira de rodas, como se abrisse o Mar Vermelho “cavalheiro de um lado e dama do outro”, ai de quem ficasse na frente. Parecia estar segurando uma batuta e se descabelando perante uma orquestra.

Pouco tempo depois recebeu alta, ganhou uma cadeira de rodas de uma instituição beneficente e ensaiava a volta para casa. Senti um quê de tristeza de perder um amigo. Prometi- lhe ir à sua casa, levar um VHS para assistirmos ao vídeo da quadrilha, que havia sido registrado. Nunca fui. Não sei se vive, ou se já puxou outras quadrilhas depois disso. Tomei- lhe como exemplo de superação. O amor com o qual tinha cultivado a dança e a música, tinha-o feito perceber uma melhora, que culminou com sua alta hospitalar. Não sei dimensionar cientificamente até que ponto esse resgate da sua história o ajudou na sua favorável evolução clínica. Até que ponto o amor pelo seu trabalho o fez reagir. Até porque não era São João. Era São José. José são.

 

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