Rendas

por Mayara Floss

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Ela deixava o fio correr pelas mãos. Do barbante branco saía renda, as mãos viajavam nos bilros contando histórias com as pernas apoiadas no encosto. Havia uma cadência nos bilros e nas histórias. Aprendeu entre as mãos da avó e da sua mãe o ritmo dos bilros batendo e trançando o pique. Sentava no chão  quando menina em meio a cantoria, olê mulher rendeira, olê mulher renda, tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar. Colcha, toalha, caminho de mesa, vestidos, blusas, renda de guardanapo. Rendilhava a linha do tempo, da menina, da mulher e agora da velhice. “O problema é que estou velha” ela me explicava.  A linha do tempo cortava a pele e os bilros, caminhava cambaleante, mas o ritmo, o ritmo dos bilros era preciso. A casa da mulher rendeira tinha uma única toalha de mesa, em formato de peixe, bem branca marcando o tempo, das rendas que segundo ela “duravam uma eternidade”, aquela ali tinha sido feita quando ela era moça. Inclusive aquela renda ia durar mais do que ela que já não ia durar muito, me explicava.
Os rituais eram precisos, lavar a mão, pegar o carretel, as linhas mais novas, os alfinetes. Fala enquanto os dedos trançam os caminhos, pagam as contas, folhas e tranças, frouxo, apertado. Renda margarida, renda fina, renda de mamica de porca, renda Iracema. Às vezes quando a trança tranca tem que voltar e fazer de novo. Os nós. Nós.
Os fios entrelaçados e os óculos na ponta do nariz carregam um certo medo da mulher rendeira, que faz renda das linhas do rosto, o medo de não ter para quem passar, quem irá continuar rendilhando o tempo? Maria foi rendando os olhos, as linhas da testa, as linhas que cruzam as bochechas, os lábios. Seu rosto é uma renda das mais finas e delicadas. Foi fazendo renda da linha branca e forte das suas mãos enquanto suas pernas ficaram cambaleantes e hoje se pergunta quem seguirá seu ofício. Se angustia com as modernidades, os celulares, os carros, com as caixinhas pequenas de som que fazem muito barulho. Nenhuma neta, nenhuma mulher quis aprender, nenhuma das mulheres que ela alimentou com a renda. Ela ensinou muitas mulheres, mas não do seu sangue. Explica-me e suspira, lembrando da infância aprendendo a trançar os bilros. Com doze anos ela já fazia as rendas mais bonitas.
Esse é o motivo da tristeza, quem vai continuar batendo os bilros na cadência das mãos dela? Penso no tempo e que não tem remédio para tratar a falta de pessoas da família para ensinar a fazer renda. Aproximo-me dos bilros, ela me explica, e deixo combinada uma visita domiciliar para a próxima semana. Aos poucos vou descobrindo a renda familiar, os nós, o genograma, as angústias, o ecomapa, a renda da vida de Maria. De certa forma, começo a fazer renda com ela, aprendendo com o fio da vida, batendo os bilros e trançando o envelhecer e o final da vida. Estamos nós no pique, fazendo os desenhos, mulheres, médicas, rendeiras.

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