Óleo Ungido

Por Maria Carolina Falcão

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Existem momentos durante uma consulta em que você percebe que quem está à sua frente quer falar algo, mas ainda não sabe como. Pode ser por medo da reação do profissional, ou por vergonha do seu modo de falar. Às vezes é por um sintoma considerado embaraçoso ou porque se “auto medicou e isso a gente sabe que não pode mas faz, né?”. Dessa vez, foi por conta da fé:

A consulta já estava quase no fim, mas recebi aquela olhadela de quem quer perguntar, mas estava com receio. Incentivo: “A senhora gostaria de falar alguma coisa?” Ela pega na lateral de sua saia longa, olha para baixo algo envergonhada. O coque bem preso na cabeça, roupas modestas e chinelo de dedos me lembram das senhoras da igrejinha de uma comunidade que já frequentei. O jeitinho manso de falar também: “É que eu tô com essas rachaduras no pé…” Ela levanta um pouco a saia, para que eu possa examinar. Aquela pele de quem caminha, trabalha e vive. Suave, mas com sinais de um dia a dia atarefado que envolve lavar chão com produtos de limpeza pesados, provavelmente sem o calçado protetor adequado. Pego a luva, sento no banquinho perto dela, peço para que apoie o pé na minha perna, para examinar melhor: uma ferida algo mais profunda, com sinais de infecção secundária. Outras ranhuras um pouco mais hidratadas, cuidadas à sua maneira. “E como a senhora está tratando isso?” E me olha constrangida, com os ombros tensos: “Ah, doutora Carol… eu tô passando óleo ungido…” e tira da bolsa um frasquinho para me mostrar. “A pastora lá da igreja que me deu”.

Minha herança familiar me permite ser familiarizada com esse termo. Muitas comunidades de fé, em especial as cristãs evangélicas, tradicionalmente usam óleos essenciais aromáticos para ungir as pessoas: as mãos, a testa, as chagas… Em geral são distribuídos frasquinhos para este fim. Sorrio. “Acho que foi uma boa ideia! O que você achou?” Ela fica um pouco surpresa: “Achei que melhorou um pouco sim, mas essa ali do canto tá custando a passar” e aponta para a infectada. “Vamos fazer o seguinte? Temos aqui na clínica um óleo e uma pomada que acho que podem ajudar a continuar melhorando. O óleo para todo o pé e a pomada para aquela ali do cantinho, que tal?” Ela concorda com a cabeça e se ajeita pra ir embora.

“Ah, mais uma coisa! Não esquece de levar lá pra pastora ungir esse óleo daqui também!”

Ela para já na porta, arregala o olho: “Sério, doutora?!”

Faço que sim com a cabeça: “Sério, ué?! Essa é a parte mais importante do tratamento!”

Esses dias ela voltou para mostrar o resultado do óleo ungido, a pele mais hidratada e lisa, poucas lesões, nem sinal da infecção: “Olha só como ficou! Fiz como você disse. A pastora abençoou o óleo, a pomada e fez uma oração por sua vida e da sua família!” “Oba, que beleza! Agradeça a ela por mim.” Me diz que ficou com medo de eu brigar com ela (pense!) por ter usado o óleo da igreja. Conta como sua família se engajou nas massagens nos pés, na aplicação da pomada e como sua comunidade de fé participou em seu processo de cura. E eu fico grata por essa especialidade me permitir prescrever óleo ungido e observar o trabalho conjunto da oração e da competência cultural. Do respeito e do amor ao próximo. O poder da escuta. Fico grata por me permitir compreender que, no final, ela mesma já sabia seu tratamento, desde o princípio, e o auto cuidado sobreveio graciosamente.

Me lembro, então, de uma passagem do evangelho e recito mentalmente, enquanto ela sai sorridente do consultório: “Vá em paz, mulher! A tua fé te salvou.”

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Um comentário sobre “Óleo Ungido

  1. Médicos ,médicos de família, Anjos que o nosso Criador colocou na terra para , tratar, ajudar e salvar vidas , Deus é um só para a crença e fé de todos , inclusive dos que dizem não acreditar, mas que também tem seu Deus , linda demostração de , conhecimento, prificionalismo e amor ao próximo, parabéns Anjos de família.

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