Arrastão

por Ricardo Mannato

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No fim da manhã de atendimento, Maria entra na sala. Demanda espontânea.
Mulher branca de 60 anos, aparentando bem menos com seus cabelos pretos lisos
presos em um coque, pele jovem, óculos vermelho saltando os olhos e vestido preto
de lycra.
– Doutor, que bom que você fez esse encaixe para mim. Não estou me
aguentando de dor nas costas. Menino, vou começar um emprego novo de
faxineira, tenho que dar um jeito nessa coluna, pelo amor de Deus. Preciso bater um
raio x pra ver o que é isso!
Destrinchando melhor; ela “sempre” sentiu essa dor lombar, afinal tem uma
perna maior que a outra, mas estava pior ultimamente, depois que inventou de
ajudar a filha com a mudança. Não irradiava, era pior com a movimentação e dava
uma aliviada quando ela tomava dorflex. O exame físico ajudou a corroborar a
hipótese de lombalgia mecânica, muscular e óssea. Raio X não seria necessário,
expliquei, já temos todas as informações que precisamos. Combinadas algumas
medidas para aliviar a dor, pactuamos uma interconsulta com a fisioterapeuta da
clínica e uma visita ao grupo da dor e autocuidado, para participar de uma sessão
de acupuntura.
– Nossa, doutor, preciso disso mesmo. Quero me curar rápido, tô ficando
estressadíssima já. Essa dor tá acabando com minha disposição, faz meses que
não vou no forró!
– É? Tu gosta de dançar um forrozinho?
– Ô se gosto. Vou sempre na Feira de São Cristóvão com minhas colegas,
dançar um forró abraçada com os caras, vê se tem coisa melhor. Vou te falar que eu
sou assim mesmo, tiro esses caras mais novos pra dançar e levo pra casa depois.
Minhas colegas ficam bobas, mas eu não tô de bobeira não, ué. Tamo dançando
pra lá e pra cá, acontece o beijo e eu já mando logo: ‘E aí? Rola de ir pra sua casa?’
É ruim que eu saio sozinha de lá, elas que são muito mais novas ficam só
moscando, eu dou direto o bote.
Caímos no riso com esse depoimento sincero, entendendo melhor o quanto
aquela dor estava influenciando na funcionalidade da Maria. Conversamos sobre a
importância de se proteger em encontros casuais, incentivando que continue dando
seus botes de forma segura.
– Essas meninas novinhas ficam de cara com o sucesso que eu faço. Só saio
de casa se for para ir até o fim. Elas me chamam até de Vovó do Arrastão, porque
por onde eu passo, saio arrastando uns caras para casa.
– Me dá seu telefone, Maria, que vamos agendar com a fisioterapeuta e te
retorno com a data.
– Muito obrigada. Anota aí, vovó do Arrastão, que tu não esquece qual Maria
que é.
Vejo mil lombalgias mecânicas por semana: umas agudas, outras mais fortes
e duradouras, aquelas com paresias e limitação de movimento e outras que só
aparecem nas segundas de trabalho, mas só existe uma que tá impedindo o forró
quebra-estresse da Vó do Arrastão: a da Maria. Doenças se repetem, adoecimentos
são únicos.

 

Ricardo cursa Medicina na UFRJ e nos mandou esse causo que vivenciou durante seu internato em Medicina de Família e Comunidade.

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