Hora do banho

por Arthur Fernandes

Nessa última semana do ano recebi Norma. Fazia muito tempo que não nos víamos. Ela costumava se dedicar integralmente aos cuidados do marido, um idoso acamado e com demência em estágio avançado. Sua vida girava em torno dele há, pelo menos, 3 anos. Ao abrir a porta do consultório, os olhos marejam e ela diz:
– O senhor soube, né?
– Eu soube…
– Pois é, doutor. Agora o sofrimento dele acabou. Faz 3 meses que ele se foi… E eu entendo, sabe? Que ele descansou… Mas faz muita falta!
– Imagino… Quer me contar mais um pouco sobre isso?
– Ele era minha vida. O senhor deve se lembrar.
– Lembro…
– Eu dormia e acordava pra cuidar dele. E não me cansava, não. Só sabia fazer aquilo. Agora é uma tristeza o dia todo…
– Essa tristeza tem um nome?
– “Falta”. Porque de manhã cedinho, não tem mais pra quem eu organizar o café. Antes do almoço, não tem mais em quem eu dar banho. A noite, não tem mais porque bater a papa no liquidificador e dar na colherzinha, como o senhor ensinou desde aquela visita, quando tirou a sonda dele… E ele comia tão bem…
– Só posso imaginar quanta falta ele fez, dona Norma… Tem conseguido conversar com mais alguém sobre isso?
– Não… Aliás… Com ele!
– É mesmo? E como?
– Ele aparece em sonho pra mim.
– Sério? Me conta como é?
– Já foram umas duas vezes. Primeiro ele apareceu num sonho pra dizer que tava bem e que tava feliz. Foi rápido, deu nem tempo de pensar direito. Passado um mês, mais ou menos, ele apareceu de novo, dizendo “não se aperreie, não, meu amor, que eu tô num lugar muito bom; aqui não tem você, mas é muito bom; não fique triste assim não”.
– E como foi ouvir tudo isso dele?
– Deu uma coisa boa, num sabe, doutor? Assim, como se trouxesse uma calma. Mas a saudade é muito grande.
– Verdade… O que você espera agora?
(silêncio)
– Aguentar, só isso. Aguentar viver esse mundo sem ele. Eu tenho rezado mais, num sabe? Pra conversar com Deus mesmo. Pedir ajuda a ele.
– Conversar com Deus é bom?
– É bom. Ainda doi, mas uma coisinha a menos.
– Tem ajudado a aguentar a viver, pelo menos por enquanto?
– Tem. Tem sim.
.

(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)

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