Sem Fome

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Por Gabriela Silva

      Tá chovendo e eu me lembro de mim antes. Antes do temporal, do Rio, da faculdade
de medicina, antes das eleitas, de Manguinhos, antes da Flor, da análise, antes de tudo que fez estar nessa rede vermelha. Uma vontade-sonho de comprar uma Kombi e sair por aí e viver a vida . Com 12 anos eu tive meu primeiro insight sobre o ciclo tacanho vazio do consumo. Comentava com uma das populares da sala que ria da minha ingenuidade. Ela que anda sumida. Um casamento desfeito. Não faz falta. Mas eu gostava dela.
Tá tocando Nana Caymmi e eu ouço os comentários sobre o caos da noite anterior. Um
temporal que deu medo. Pedia pra Yansã me poupar. Antes do lamaçal e da cachoeira eu fui na casa do Seu Ferreira. Velho falante, marido da Dona Dalva. Uma testa de capacete, perna fina, tronco quadrado, tinta preta manchando a testa. Tem que ver o medico de vista pro Ferreira! Outro dia ele estava abaixado falando com o saco preto achando que era o gato. Tive que rir. Uma das primeiras casas que visitei no Mandela. O Zacarias na gaiola. Um canário velho e aleijado com o cocuruto adornado por uma franja idêntica ao falecido trapalhão.
Tá deitado, o Ferreira. A bermuda na canela, fralda, talco no bumbum. Respiração
ofegante. Não se move quando eu chego. Desinchou a perna. Mas tá com a pele irritada e essa força pra respirar. Tenho medo de ver seu rosto. Primeira vez que vejo seu corpo assim deitado. Toco suas costas, vejo dois olhos opacos, a boca preta machucada. Rachaduras. Paredes azuis, um buraco mostrando o cimento embaixo. A cachorra com dois filhotes. Rabinho abanando. Dois olhos que já não estão. Meu coração bate rápido, não tanto quanto o dele. Meus olhos assustados encontram o da Diene, agente de saúde. Somos 4 olhos assustados e apressados. Documentos, uma muda de roupa. O vizinho leva o corpo pro carro. Está muito abafado. Dobra o espelho para passar na barricada. Ainda assim raspa o outro lado da lataria. Os vizinhos acenam e o carro grita percorrendo os becos. Cadê a maca? Alguém ajuda. Quem é o médico da sala vermelha?
Tá em pé, dois olhos frios e calmos. Ansiosos os meus. Gaguejo. Conto a história. É um
paciente muito querido. Esse ambiente me deixa de perna bamba e me faz faltar a voz. Ainda hoje. O céu tá preto e vomita 80 tiros. Chego em casa afogada com água nos joelhos. Tá sem luz. Apago. O bolo no forno não dá cheiro. Tomo chá de gengibre e peço pra fome voltar, enquanto Nana fala da menina que a Mãe d´água levou.

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