Todos os monstros

por Fabrício Mattei

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Era daqueles pacientes que escancaram nossas limitações. Infecção de ouvido que ia e vinha. Ia e vinha. Exame. Especialista. Ia e vinha. Ia e vinha. Eu tinha dificuldade em segurar o suspiro quando via seu rosto na sala de espera. Que audácia dessa otite de não ler o livro. Está escrito lá: antibiótico resolve. Tinha que resolver.

– O otorrino passou vários remedinhos doutor. Gastei até o que não tinha. Mas não adianta.

Foi demitido. É essa a palavra, mesmo pra quem não tem nem papel assinado? Não sei. Foi pra rua. Isso, foi pra rua, melhor. Melhor pro meu texto. Pior pra ele, claro. Gente doente não serve pra erguer casa. Deve ser difícil carregar tijolo com dor de ouvido. Com o algodão tampando pra não purgar, não se ouve o supervisor.

E eu lá, sofrendo a cada retorno dele. Quer dizer, sofrendo não, que na verdade eu só ficava um pouco inquieto durante aqueles minutos. Depois já estava bem. Meu salário caia na conta até antes do dia primeiro, às vezes.

Claro que ele bebia. Cachaça, não cerveja como eu. Não lembro se perguntei ou se senti o cheiro. De manhã estava sóbrio, pra sofrer. E fumava bastante. Oitenta por cento de imposto, na cachaça e no cigarro. Calçamento e esgoto, o bairro não tinha .

Eu não sabia se ele tinha família. Devia saber. Meu título diz: médico de FAMÍLIA. Mas não estava escrito em lugar nenhum. Algumas vezes eu esquecia de perguntar. Outras não dava tempo. Acho que nem tinha lugar específico pra anotar no prontuário. Faz falta perguntar. Talvez tenha falado de mulher e de filhos alguma vez, mas passou batido, no meio das várias dores. Ah, é, ele tinha dor no ombro também. Ele trabalhava com construção; como não ia ter? Vez por outra aquela dor na barriga que aparece hoje e desaparece amanhã.

É compaixão que diz né? Eu tinha. Talvez eu tivesse menos compaixão se eu pudesse ajudar ele mais. Mas eu não podia, porque eu tinha só o antibiótico. E os meus ouvidos, sem infecção. Aí sobrava o sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem. É assim que está no dicionário. E era só o que eu tinha.

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Ela entrou no consultório chorando. Levamos alguns minutos até começar uma conversa real. Antes, repetia feito mantra:

– O próprio pai. O próprio pai. O próprio pai.

O que me contou, infelizmente, não era incomum. Em uma conversa com a filha de três anos, ouviu palavras que jamais ia esquecer. Como quem conta sobre as últimas brincadeiras na escola, a menina tinha contado como o pai a tinha tocado “naquelas partes”. Depois disso, a mãe não conseguia descrever mais nada. Tudo era uma nuvem. Setenta por cento dos casos de abuso são perpetrados por pessoas da família. Isso eu sei faz tempo, mas é duro demais quando os números viram gente.

Pra mim, mais uma vez, restava oferecer o ouvido. Algumas informações sobre a parte burocrática – sobre a jornada de entraves que ela teria que enfrentar justamente no pior momento da vida. Não tinha psicólogo no posto. Com sorte, algum ponto do sistema poderia oferecer algo melhor. Na minha experiência, em geral iam ser só entraves.

Ao fim do atendimento, num suspiro de resignação, sentenciou:

– Mas os guris vão pegar ele. Pode deixar.

Eu sabia quem eram os “guris”. Todo mundo sabia quem eram os “guris”. O poder de fato da comunidade. Juiz, júri e polícia, onde o estado pouco dá as caras. Os “guris” em si mudavam toda semana. A vida realmente é curta por esses lados. Mas o código de conduta, a lei informal da vingança, incrivelmente, se mantém intacta.

Finalizada a consulta, entrou o técnico de enfermagem.

– Tu sabe quem é o cara que fez isso?

Não sei bem como, ou por que, mas deduzi na hora. Um choque. Aquele homem tão sofrido, que tanto buscou minha ajuda… Não era possível! Alguém capaz de coisas tão cruéis tem que ser uma criatura horrenda, fria, arrogante e debochada. Não?! No cinema geralmente é assim. Fica mais fácil pra cabeça aceitar.

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O choque perdurou por algumas semanas. Como esperado, nunca mais o vi. Não sei se exílio forçado ou algo bem pior. Tento não pensar muito nisso, hoje. Meses depois, porém, assistindo um desses seriados estadunidenses que estão na moda, ouvi uma frase que me fez lembrar intensamente da situação. O contexto talvez fosse outro, mas encaixou perfeitamente. “Todos os monstros são humanos”.

Um comentário sobre “Todos os monstros

  1. Viver é perigoso demais, como diria Guimarães Rosa.

    Em sex, 19 de jul de 2019 07:17, Causos clínicos – histórias da Medicina de

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