Teste de Sensibilidade

por Carla Teixeira

Resultado de imagem para antibiograma

Era uma quarta-feira com cara de segunda pelo volume de pacientes na consulta dia. Carol*, a técnica em enfermagem que está no acolhimento chega no consultório e diz:

– Carlinha, dona Araci* disse que quer falar com outra médica, pois tu deu um remédio pra ela que ela não pode tomar.
Olhei com estranheza e peguei o prontuário, procurando relembrar o caso.
Dona Araci, aos 83 anos, não era uma paciente fácil, na primeira consulta agendada comigo no dia anterior, já veio com o diagnóstico e com uma reclamação:
– Vim mostrar uns exames que estão normais, mas estou com infecção urinária. Eu queria consultar com a Dra. Sandra*, que é minha médica, mas disseram que ela estava de férias, e por causa do meu endereço teria que consultar contigo.
– Sim, é verdade, ela está de férias e eu e a Dra. Nicole* somos as médicas da área vermelha onde a senhora mora. Deixe-me ver seus exames!
De fato, seu exame mostrava sinais de infecção. Chequei se ela apresentava sintomas e quando questionei sobre alergias, Dona Araci discorre com segurança:
– Sim, várias, eu tenho uma lista de antibióticos que não posso tomar, vou pegar aqui pra te mostrar. – Revira a bolsa, e após alguns segundos exclama: – Não acredito que deixei em casa, vou ligar para o meu filho.
Rapidamente saca um celular moderno, e faz a ligação:
– Filho, vai ali na segunda gaveta da cômoda ao lado da minha cama, e pega uns papéis que tem ali. Ali tem o nome de uns remédios que não posso tomar.
Ela pega a caneta da minha mão e começa a anotar em um papel alguns nomes, e a lista me deixa um tanto angustiada. Era possível ver que pelo que o filho lhe ditava, Dona Araci não poderia tomar sulfas, amoxicilina e nitrofurantoína. Ofereci então a fosfomicina, em dose única, mas que que ela teria que comprar.
– Só uma dose? Isso aí não funciona, não tem outro?
Pensei por alguns instantes, não iniciaria uma quinolona para aquela senhora, então lembrei da cefalexina. Comentei de minha escolha com Dona Araci:
– Mas tem certeza que esse eu posso tomar? Eu sou sensível a muito remédios.
– Fica tranquila Dona Araci, esse não está na sua lista.
Dona Araci sai da consulta como se pensasse “é o que a casa oferece né”.
Relembrando nosso encontro do dia anterior, já me dirijo até o acolhimento um tanto contrariada e pensando “o que eu vou dar pra essa mulher?”
– Bom dia Dona Araci, tudo bem?
– Tu me deu um remédio que não posso tomar, tá aqui a lista oh! – e me entrega, com aquela olhar de “essa menina novinha não sabe de nada”, um papel amarelado pelo tempo, mas muito bem conservado.
Olho atentamente o papel com o título “TESTE DE SENSIBILIDADE”, e fico um tanto paralisada ao ver que ali constam uns 8 antibióticos diferentes, incluindo todas as possibilidades que eu conhecia para tratamento ambulatorial de ITU. Reflito por alguns segundos, e me dou conta que o tal teste de sensibilidade, na verdade é um antiobiograma, de uma urocultura que Dona Araci havia realizado há mais de 10 anos.
– Dona Araci, quando a senhora fez esse exame aqui? Como foi? Fizeram algumas marquinhas na sua pele? – só para garantir que eu estava certa da minha descoberta.
– Não, não, fiz uns exames de urina e de sangue nessa época.
– Dona Araci, é o seguinte, este exame aqui, esse teste de sensibilidade, na verdade testa a sensibilidade da bactéria aos antibióticos, e não sua. Isso aqui não é um teste de alergia, é o que a gente chama de antibiograma. Eles colocam o xixi numa plaquinha, e colocam um pouco de cada um desses antibióticos, e depois avaliam com quais a bactéria morreu. Por isso aqui, mostra que existe sensibilidade para todos esses antibióticos, por que a bactéria que a senhora tinha na urina, morria com qualquer um desses. A senhora consegue me entender?
– Então quer dizer que esse teste de sensibilidade não é uma exame de alergias?
– Não, não, o exame de alergias é bem diferente.
– Tem certeza?
– Sim Dona Araci, tenho certeza.
– Nossa, e eu achando que não podia tomar nenhum dessa lista… Então quer dizer que posso tomar aquele que tu me deu sem problemas.
– Pode sim, a senhora não tem alergia a ele, fica tranquila.
– Então tá bem, muito obrigada. – Dona Araci pega suas coisas, e pela primeira vez desde que a conheci, esboça um sorriso e me passa a sensação de que ficou satisfeita com o atendimento.
– Tenha um bom dia Dona Araci, espero ter ajudado.
Após a saída de Dona Araci, eu e Carol acabamos rindo da situação, e do tal teste de sensibilidade.
*Nomes fictícios para preservar a identidade das envolvidas.
Carla da Cruz Teixeira, R2 em MFC do GHC/POA

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