As duas Ângelas

por Gabriela Silva

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Hoje foi mais um dia muito quente neste verão de 2019 na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Inclusive, esta é a primeira quarta feira depois do aniversário do santo mencionado. Pelos olhos dos católicos um soldado protetor dos prisioneiros cristãos que dentre as tentativas de assassinato, numa delas foi flechado. Nas religiões africanas ele se chama Oxóssi o caçador, entidade das florestas e representado comumente com arco e flecha.

Na comunidade de Manguinhos desde o início da estação se multiplicam as piscinas de plástico pelas ruas. Há uma em quase todas as encruzilhadas. Quando sigo para as visitas domiciliares sinto quase um desejo de também estar ali com as crianças dentro da água. Hoje vou visitar a Ângela. Levo comigo uma pasta com uma entrevista que preciso fazer a pedido do comitê de óbito infantil. A caminhada embaixo de um sol impiedoso é árdua por que no entorno há muito asfalto, um rio que praticamente só tem esgoto e nenhuma árvore.

Sigo pelas vielas e passo na frente da casa de outra Ângela, ela faleceu há pouco mais de 2 meses, acredito que por uma complicação cardíaca, mas é difícil ter certeza, por que ela odiava hospitais e exames quaisquer que fossem. Dona de seu destino, só  fazia o que acreditava. Chegou a achar que sua doença era “falta de Deus”, mas não gostava de ir à igreja também. Ia lá só pra “gritar seus demônios” e pra ser orada. Tinha uma dificuldade de fala, mas comunicava o que queria. Tinha uma pele preta macia e limpa, o olhar profundo inquisidor e expressão arredia. Não tinha um dente na boca, mas rimos muito juntas. Eu quis escrever isso no percurso da rua 1, onde ela morava, por que ela me marcou e eu acho importante que ela continue existindo aqui neste registro, assim como permanece viva em mim.

Estou ,então, na rua 1 do Mandela. Passei da segunda piscina, aonde brincavam algumas crianças e vi a Ângela com uma mangueira lavando a calçada em frente a sua casa. Estou acompanhada pelo Saulo, o agente comunitário de saúde da minha equipe. A segunda Ângela é uma mulher negra, gorda, baixa, com dentes muito brancos, sorriso fácil, olhos verdes atentos e doces. Algumas crianças brincam ao seu redor. Quando eu chego ela desliga a água, mas não me convida para entrar. A gente se abraça um pouco de longe, devido ao calor tão grande que inibe este tipo de toque formal.  Eu falo sobre a Luísa, sua filha que morreu por uma complicação respiratória aos 9 meses, mais ou menos na mesma época que a outra Ângela falecia de complicações de uma insuficiência cardíaca. Ela não chora. Ela ri o riso mais triste que eu vi. Ela não fala da Luísa, chama de neném. Jogou o cartão da criança fora e o da gestante também. Ficamos ali, as duas, por aproximadamente 20 minutos. Suando em bicas enquanto perguntava algumas coisas que eu pensava não fazerem o menor sentido. Ela também, mas respondia pacientemente, quase sempre chorando dentro daquele riso. Ofereço uma escuta na clínica quando ela quiser, se quiser, mas acho que ela não vai. Não foi mesmo oficialmente para ser escutada, mas voltou algumas vezes dentro dos meses seguintes para queixas físicas. A Ângela tem mais 4 filhos e uma renda de menos de meio salário, coisa que descobri depois de uma das perguntas que fui obrigada a fazer. Mas conta que usa a garagem inutilizada como vendinha. A Ângela morta sempre chorava um choro contido que explodia quando falava da ausência de seu filho. Nem ajudou a comprar a barraquinha de doces para que ela pudesse ter seu próprio ganha pão.

Na volta compro umas ameixas no feirante que fica debaixo do viaduto do trem e que divide a mesma tenda com a boca de fumo. Estou totalmente suada e só penso em chegar no ar condicionado. Ainda levo uma hora para terminar de preencher a papelada da neném. Antes de virar a chave na ignição olho pro céu menos por seguir as palavras do Cartola e mais por um hábito automático. Paro por um instante por que sinto um frio na barriga e um aperto na garganta. Mas rapidamente volto, viro a chave e é mais um dia ficando pra trás pelo retrovisor.

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