Morreu seu Pascoal.

The_Doctor_Luke_Fildes
The Doctor – Luke Fildes (1891)
Quero escrever alguma coisa, apesar de não saber bem o quê.
   Muitas ideias principiaram desde que a filha me ligou avisando até agora, quase três horas depois, quando cheguei de volta em casa após declarar o óbito. Nenhuma deslanchou. Pensei durante a ida na minha pouca presença nos dias finais de alguns pacientes cuja morte já era esperada e, inclusive, já havia sido discutida com os próprios e suas famílias. Em como gostaria de saber fazer como a Julia Duringer (médica de família e comunidade com quem estudei) e organizar rodas de memória e perdão nesses dias finais. Em como é um privilégio atestar um óbito na noite fechada, visitar o bairro, as vielas e a casa em plena escuridão, com a sensação de pertencimento e intimidade que se fortalecem a cada dia. Em como me surpreendo sempre com a quantidade de parentes e amigos, oportunidade preciosa da morte em casa. Em como são detalhadas e ricas as lembranças dos últimos dias, e mais ainda das últimas horas, dos últimos minutos, oferecidas como um presente para quem quiser ouvir. Em como nos tornamos familiarizados com a morte, que potência tão valiosa da profissão!
   No ritual simbólico de confirmar o que todos já sabem. Em como é pictórico conversar com as filhas enquanto se acaricia a mão do cadáver do pai. Em como a mente divaga e volta. Em como a viúva preferia não descer ao quarto onde estava o corpo, e ao mesmo tempo estava conformada e estranhando a situação toda, em como se mostrava tranquila mas não recusou a valeriana que as filhas lhe deram. Em como posso eu, um garoto, dar colo para uma senhora de 93 anos. Em como cada abraço tem um significado diferente, pois cada parente tem sua história consigo e com o falecido, algumas das quais já vislumbrei. Em como também me despeço do morto, já que eu também tenho minhas histórias comigo mesmo, e com ele. Em como um problema com uma declaração de óbito mais de cinco anos atrás ainda marca todas as subsequentes, e esta, na revisão infinita do documento, para proteger do medo de que esta família também tenha que voltar do cartório até mim por um erro que, ao final, nem existia. Em como a casa é um bom lugar para morrer, se podemos morrer bem nela. Em como a casa agora já ressoa com conversas de tipos e tons variados, que o tempo cuida para que também os presentes se familiarizem com a morte. Em como quem mais chora é a filha que está longe. Em como quero reforçar, sem exageros mas com clareza, que cuidaram bem dos últimos momentos, e buscar adubar o bom luto, e tocar a naturalidade do fim. Em como, durante meu caminho de volta, me orgulho de declarar o óbito dos meus pacientes em casa, e no quê pode significar este orgulho, em suas várias faces.
Em como é possível ser tão privilegiado.
Em por que faço o que faço.

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