Mandando a real

por Carolina Reigada

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A força está com vocês!

Eu dei aulas em uma faculdade de medicina, por um tempo. Um tempo definido entre a empolgação de estar de novo na sala de aula e a conclusão de que não gosto de dar aulas.

Uma das minhas aulas falava sobre a tal da “Medicina Baseada em Evidências”. Porque a medicina dessas de atender pessoas nos consultórios todos os dias, por mais incrível que pareça, tem bem menos ciência do que pode parecer. A maioria das decisões que os médicos tomam são baseadas mais no blend bom senso + experiência pessoal + conhecimento de fisiologia básica do que em evidências científicas de alta qualidade.

O que eu chamo de “evidência científica de alta qualidade”? Estudos científicos bem pensados e bem executados, em que as pessoas que medem o efeito dos remédios não sabem quem realmente está tomando o remédio em investigação, e que a divisão de pessoas com a doença que se quer tratar entre os dois grupos (o grupo que toma o remédio em investigação e o grupo que toma o placebo) é feita mais ao acaso possível. Muitos remédios que tomamos e prescrevemos não tem essa investigação.

Por quê?

Porque, quando é feita, os remédios têm pouco impacto de verdade na doença; porque são estudos caros, às vezes com problemas éticos, e demorados e a indústria tem pressa em vender aquelas pílulas que produziu o mais rápido possível; porque a fiscalização está bem aquém do mínimo necessário para garantir a segurança da população. Nós.

Eu comecei falando das minhas aulas porque essa impressão que a maioria das pessoas têm, que “remédios sempre funcionam e fazem bem”, também era a dos alunos. Claro, alunos são pessoas incluídas nessa sociedade aqui, a nossa, que foi levada a acreditar que:

– se fizer exames o suficiente, vai prevenir ou descobrir bem cedo qualquer doença e nunca vai precisar ter uma doença “grave”;

– remédios são necessários para melhorar, de qualquer coisa. E remédio quer dizer uma pílula.

Aí, voltando naquela aula que eu mencionei, eu explicava a eles o conceito de “NNT”, ou “número necessário para tratar”. Quando se estuda o remédio bem estudado, é possível dizer qual o NNT desse remédio, ou seja, o número de pessoas que precisam tomar esse remédio todo dia, por um período de tempo, para que UMA DELAS tenha um benefício do uso do remédio (ou seja, prevenir um evento indesejado)*.

Entendeu? Vou exemplificar, porque isso é confuso.

Sabe o AAS infantil, que muitas pessoas gostam de tomar de vez em quando para “afinar o sangue”? Então. Considera uma população que nunca teve infarto nem derrame. Se esse pessoal tomar um AAS por dia por um ano, sabe quantas mortes serão evitadas por causa desse AAS? Sabe quantas? Nenhuma. Nessa mesma população, 1 pessoa a cada 2000 vai deixar de ter um infarto por causa desse AAS (um infarto que não a mataria, mas também ninguém quer enfartar, né?). Por outro lado, 1 pessoa a cada 3333 vai ter uma hemorragia grave por causa desse mesmo uso de AAS**. E hemorragia grave, cara, ninguém quer também, né?

Sacou? Não dá pra saber, de antemão, quem vai ter o infarto evitado e quem vai sangrar gravemente por causa desse AAS. Por isso, é importante que o remédio só seja prescrito quando os benefícios dele são maiores que os danos. Por exemplo, quando a pessoa candidata a usar AAS já infartou ou teve um derrame ou tem alguma outra evidência de placas de gordura nas artérias. Nesse caso, iremos prevenir problemas cardiovasculares em 1 a cada 50 pessoas; uma morte a cada 333 pessoas; um infarto a cada 77 pessoas e um derrame a cada 200 pessoas. E uma a cada 400 terá um sangramento grave**.

Mas, nesse segundo caso, como estamos falando de uma população de alto risco, vale a pena mais intervenção.

Legal, mas voltando ao assunto em questão, alguns alunos (geralmente aqueles que realmente estavam prestando atenção ao que eu falava, e você, que leu até aqui) ficavam inconformados com essa nova informação, com esse choque de realidade. Eles descobriam, de uma só vez, que:

– os remédios não funcionam sempre, e alguns não funcionam nunca, ou seja;

– eles não vão ser os curadores e salvadores do mundo, e;

– às vezes vão fazer mal aos que estavam tentando fazer bem e;

– eles próprios não estão a salvo da vida.

Porque, no fim das contas, o que a gente quer é segurança e controle. Sobre nossa saúde, nossa vida, da nossa família, tal. E a medicina não pode dar isso a vocês. Infelizmente. A gente ajuda? Nossa, muito. As doenças infecciosas, os traumas, dores agudas, algumas cirurgias (morremos muito menos de “dor do lado”*** desde que aprendemos a operar apendicite, não é?), para isso tudo temos intervenções e tratamentos eficazes.

Mas, não temos a pílula mágica da segurança que nada irá acontecer. Não temos o scanner para prevenir todas as doenças que existem (nem temos o scanner para prevenir só os cânceres), não importa quantas tomografias se faça.

E, acho que isso é o mais pesado de admitir, sabe essas doenças que exigem uma carga tão grande de nós atualmente? A hipertensão, diabetes, reumatismos, artroses, alergias, ansiedades, tristezas, essas todas…essas, a gente não sabe explicar bem porque começam e, talvez por isso, não sabe direito como tratar, não – pelo menos, não temos uma forma só, certeira, de tratar. Os remédios delas são muitos e muitos porque nenhum deles funciona super bem e é superior aos outros; e porque fazer remédio para essas coisas dá dinheiro. E é muito mais comum as pessoas ficarem doentes dos remédios que tomam para tratar essas coisas do que se pensa.

Eu acredito (e aí vou admitir que não tenho evidência científica bem embasada para dizer isso, não) que essas “doenças crônicas” estão sendo mal abordadas porque insistimos em ver o corpo como máquina. E enquanto não admitirmos que a maioria dessas doenças nasce do contexto familiar, social, comunitário, além das escolhas e possibilidades de estilos de vida de cada um, vamos continuar sendo incompetentes para trata-las. Precisamos assumir que o tratamento desses “males modernos” passa por auto-responsabilização, por comer menos sal e coisas industrializadas, fazer atividade física, separar tempo para lazer e cuidar do nosso desenvolvimento emocional e espiritual – afinal, nós somos os responsáveis por nossas próprias emoções. E isso, não tem comprimido que faça por nós.

*http://www.scielo.br/pdf/rbp/v27n2/a15v27n2.pdf

**Quer saber mais? Visite o site www.thennt.com, foi de onde tirei esses dados, os artigos de base estão lá; mas não para de tomar remédio sem conversar com seu médico! Existem casos específicos, o melhor é saber o que é melhor para VOCÊ.

*** Tem referência em “O Físico”, de Noah Gordon. É livro e tem filme, é interessante.

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