Do lado de cá

por Monica Correia Lima

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De repente, sem que esperássemos, a família estava às voltas com um quadro dos mais severos que já vimos, um abscesso e empiema no Sistema Nervoso Central, evolução de uma sinusite em um adolescente de 15 anos. Seus sintomas foram insidiosos, cefaleia forte, confusão mental, estrabismo divergente de um dos olhos, apatia e olhar vago (ausência?), parestesia em perna direita.  Alguns olhando com olhar descrente: Nunca vi isso – Disse o plantonista. Também não tínhamos visto, mas eram sintomas de algo que estava pressionando o lobo frontal, e eram preocupantes.

Atendimento no melhor e mais equipado hospital da Região, mas sucateado por interesses escusos de uma política pública irresponsável e inconsequente, que privilegia o processo privado ao invés do público (cujo financiamento, embora deficiente, deveria ser suficiente para dar qualidade à atenção à saúde nesse nível de complexidade).  A tomografia mostrou então a compressão, realizada a craniotomia (adiada o suficiente para a chegada o neurocirurgião que operava, o que estava de plantão não fazia o procedimento), retirada a secreção, o caso é grave.

A família fragilizada, os médicos assistentes, cada dia um, se limitavam a falar que o caso era grave, sem explicações, sem diagnóstico, sem prognóstico.  Após a segunda tomografia, nada de conversa, nem para consolo, nem para alegria, simplesmente o silêncio.  Ou outras vezes, pior que o silêncio, uma pergunta que não somente contraria nosso código de ética mas que contraria tudo o que assimilei nesses quase 20 anos de SUS, quando o familiar solicita informações e o profissional médico pergunta se o inquisidor é médico.

Então foi minha vez de ficar com o menino, adotada como tia, sentia-me na responsabilidade de estar junto da família nesse momento difícil. Cheguei próximo ao profissional neurocirurgião que estava sentado no computador, olhando vagamente para a tela, perguntei da evolução do menino, informei que era tia, ele ficou nessa mesma posição, de costas para mim, falando em voz baixa e murmurando que o caso era grave, sem diagnóstico, sem prognóstico, sem orientação sobre o tratamento. Pedi a ele para ver os exames, foi quando ele empurrou a cadeira, olhou pra mim de baixo ao alto e perguntou: Você é médica?  Disse que sim, e ele então disse que eu podia ver.

Ainda me pergunto se eu não fosse médica, qual seria a atitude dele, pois para a filha do senhor que estava vizinha ao menino ele simplesmente se recusou a dar explicações, a família de um senhor que caiu de 5 metros e provavelmente fez um coágulo perguntou sobre as medicações que ele estava tomando enquanto internado e ele simplesmente afirmou: Não interessa, você não é médica.

Fico pensando se somente familiares médicos podem receber o presente da informação do médico assistente. Desta forma teríamos que ter um médico em cada família. Então concluindo essa conversa temos um desafio, ou aumentamos o número de médicos nesse país ou cumprimos o nosso código de ética médica.

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