Anonimato

por Bruno Pessoa

Resultado de imagem para anonimato

Como médico de uma comunidade, sempre gosto de privilegiar a economia local: compro o almoço numa vizinha da rua do posto de saúde, um cosmético na tia da revistinha, uma sobremesa na menina que faz dudu em casa para complementar a renda. Talvez você não conheça “dudu”, é porque dependendo da cidade ele pode se chamar de dindin, dadá, sacolé, flau, chup-chup, geladinho – essa é a palavra que tem a maior variação regional que eu conheço. Onde eu estava mesmo? Na economia local.
Pois bem, há um ano e meio estou trabalhando em um novo bairro. Há um ano e meio um comunitário, que mora na casa vizinha ao prédio da unidade de saúde lava meu carro. O meu e de outros funcionários do posto. Praticamente todos os dias o avisto no posto. Nos dias em que chega água da distribuidora, ele aparece na extremidade do corredor e faz sinal positivo: a esse código entrego a chave. Dia desses ele estava na unidade, mas não tinha água na rua, achei estranho mas pensei: deve ter vindo conversar com o pessoal na recepção. Saio apressado do consultório, estava uns 30 minutos atrasados, ele se levanta e diz:
– Doutor, hoje eu vou falar com você.
– Espere um pouco que eu estou atendendo.
– Mas eu tenho hora marcada.
– Então eu já-já te chamo, antes preciso chamar uma pessoa. E grito: MANUEL!
Ele responde:
– Opa, sou eu mesmo.
Poxa, pensei comigo mesmo. O nome dele é Manuel, como eu não sabia? Ele lava meu carro  toda semana e eu não sabia o nome dele. O nosso carro pode dizer muito sobre nós; provavelmente ele conhecia muita coisa sobre mim: as “gordices” que como enquanto estou dirigindo; as roupas e brinquedos das crianças espalhadas dentro do carro; pelo número de cadeirinhas, sabia que tenho dois filhos; sabe qual a estação de rádio que eu gosto de ouvir; enfim, quantas intimidades nosso carro não pode revelar. E eu não sabia seu nome.
Começamos a conversar. A consulta era preventiva, nada de doenças. Pede exames de próstata e insisto em dizer que cuidar da saúde é muito mais que exames. Tento introduzir uma investigação sobre alcoolismo: as pessoas da unidade diziam que com o dinheiro da lavagem do carro ele “enchia a cara”. Ao que ele diz:
– Sabe o que é saúde doutor? Saúde é ter um emprego, é ter uma família, é poder se sustentar. Faz quinze anos que eu vivo de bico. Até carteira de motorista eu tenho, mas não aparece nada, se não fosse pelos carros que eu lavo, eu não teria dinheiro nem pro de vestir.
– A situação está mesmo difícil. Tomara que a gente saia dessa  crise (mas pensava: com esse governo eleito, está difícil!). E o senhor mora com quem, divide as contas com alguém?
– Eu moro com minha irmã. Na verdade cada um tem sua casa, mas é no mesmo terreno. Na verdade era uma casa só, que a gente passou um muro no meio e dividiu. Antes eu dividia minha parte com um irmão que foi embora: ele deixou uma cômoda e uma televisão, e tenho minha cama.
– Mas o senhor tem filhos?
– Tenho 2. Fui casado, faz 15 anos que me separei. Desde então eles não querem nem saber de mim. Desde esse dia que minha vida está assim.
Entreguei os exames solicitados, dei um abraço e nos despedimos. Engoli seco. Fiquei pensando na solidão daquele homem que tem a idade de meu pai. Fiquei pensando que eu sequer sabia  seu nome, que eu não conhecia nem a superfície da sua história…
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s