Dona Rita

violencia-contra-mulher

 

Por Jéssia Maia*

“Se não fosse a Vó Maria meu cruzeiro se queimava, ai ai meu cruzeiro se queimava.”

 

Toda vez que eu via Dona Rita Maria meu estomago doía. Quando era na agenda de visitas eu já levantava com o pescoço cheio de nó. Quando era na fila da escuta já sabia que a manhã ia ser longa. Com Dona Rita eu me sentia pequenininha. Ela entrava e todas as minhas certezas caiam por terra.  Eu entrava na casa dela e sentia a minha maleta vazia. Toda a medicina do mundo era minúscula perto de Dona Rita.

Rita era uma menina bonita, irmã de muitas outras meninas bonitas. O pai de Rita um dia depois de muito beber decidiu que ela já era mulher o suficiente para se casar com um de seus amigos de bebedeira. Um dia o pai saiu de casa e deixou a porta aberta para que o velho amigo entrasse na vida de Rita.  Ela me conta que ficou grávida dezoito vezes, treze vingaram. Teve todos em casa, algumas hemorragias, infecções pós-parto. Não tinha tempo de desmamar um e já carregava outro no colo. Nunca teve escolha. Rita arou a terra, plantou quando tinha de plantar, colheu quando dava pra colher e criou os treze filhos. Hoje, não convivia com nenhum. Tinha uma filha no interior, morou um tempo com ela. Saiu de lá quando reconheceu nos olhos do genro o mesmo olhar de seu falecido.  O destino era substantivo masculino e batia.

Dona Rita tinha 66 anos no RG amassado, tinha muitos outros no rosto queimado de Sol. No prontuário vi que Dona Rita tinha uma ferida na perna que nunca sarava. Quantas feridas Dona Rita tinha na vida? Tinha uma dor no estômago que nunca melhorava. Na casa de Dona Rita só não faltava biscoito de sal e diclofenaco.

Rita tinha um neto que trabalhava, estudava e era noivo. Tinham planos de construir uma casinha nos fundos para ela. Deixei recado, pedi que viesse para consulta, prometi atestado pro trabalho, carta pra escola, o que fosse preciso. Ele veio. Procurei. Procurei no fundo dos olhos esverdeados. Ufa, nem vestígio daquele olhar. A árvore da menina Rita com seus treze galhos gerou um Homem que era só amor e cuidado.  Mas a vida também bate: boleto vencendo, aluguel pra pagar, feira pra fazer, trabalho em uma cidade e estudo em outra. Mesmo o amor tem suas ausências.

Dona Rita chorava. Me pedia que aliviasse as dores. A cada visita sua ferida aumentava. A cada encontro a minha pequenez crescia. Fizemos planos: curativo cedido pela universidade, enfermeira especialista, procedimento com preceptor. A medicina me sorria.

Dona Rita não voltou. Hoje recebi a noticia de que Dona Rita não chora mais de dor.

Na Aruanda, menina Rita e Dona Rita Maria sorriem.

 

*Jéssia Maia é Residente do 2 ano da UFPB e enviou seu causo para nós. Envie você também para causosclinicos@gmail.com

Fb/causoslicnicos

instagram Causos Clínicos

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