Daniel

por Marina Galhardi

Resultado de imagem para corpo maquina

Daniel chegou, educado e humilde, falando baixo, queria que eu pedisse uns certos exames exigidos para que conseguisse pegar medicação na farmácia de alto custo. Enquanto fazia o pedido, questionava como estava, de que mais precisava.
Tinha seus 40 anos e sua esposa já tinha me contado que tinha tido surtos psicóticos recentes e estava em acompanhamento com psiquiatra particular. Tinha sido diagnosticado com esquizofrenia. Não abordei o tema diretamente, esperei. Então ele me disse:
‘Queria um exame da cabeça’
‘Que tipo de exame?’
‘Não sei, como chama, que vê a cabeça toda…uhmm…tomografia? Isso tomografia da cabeça’ – ele lembrou o nome.
‘Claro, mas porque Daniel, o que te preocupa?’
‘Não sei, queria ver, tem alguma coisa errada com a minha cabeça, queria saber o que eu tenho’ e diante do meu silêncio e atenção ele seguiu, ‘a Tatiana te contou né, tive uma depressão muito forte, agora estou melhor, mas fiquei muito ruim mesmo, tem alguma coisa acontecendo na minha cabeça, queria saber o que é’
‘Daniel, a tomografia, ou qualquer outro exame da cabeça, não vai mostrar nada de errado com ela, não dá para ver no exame isso que você tem’
‘Ah não mostra’
‘Não, infelizmente não, não é uma alteração exatamente do corpo, do cérebro entende? Seu cérebro está bem’
‘Ah, puxa’ tirou os olhos dos meus e olhava para baixo, estava muito desapontado.
‘Você tem alguma dúvida sobre isso que você teve, algo que tem se perguntado?’
‘Não, acho que entendi, estou melhor agora, mas não entendo porque aconteceu isso comigo’
‘Infelizmente é difícil que você, eu ou qualquer outra pessoa tenha uma resposta de porque isso aconteceu com você’
Ele fez um silêncio um pouco incomodado, ainda olhando o chão.
‘Tem mais alguma coisa que eu possa te ajudar?’
‘Acho que não’
Nos despedimos e ele se foi.
Essa foi daquelas consultas que tive que parar um pouco, respirar e tentar digerir. Nunca imaginei na vida que tivesse que lidar com uma situação dessas. Nunca.
Você já parou para se perguntar em como se explica a esquizofrenia para o esquizofrênico?
E de onde vem essa crença tão arraigada na hegemonia do corpo-maquina, que precisa ter uma explicação biológica e visível numa imagem para explicar o sintoma sempre?
De onde vem essa pretensão humana de que temos a explicação racional para tudo a ponto de um sujeito, mesmo quando sua racionalidade já foi toda atormentada por devaneios, se segurar nessa última esperança de ter um diagnóstico que seja fisicamente visível, diferente da loucura.
A culpa também não é de Daniel.

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