Café com Biscoito

Visita-domiciliar-2

Por Maria Carolina Falcão

 

        “Ô Carol, depois dá uma passadinha aqui em casa pra tomar um café!”, primeira coisa que ouço quando chego à comunidade para uma visita domiciliar. Quem chama da janela do segundo andar do conjunto habitacional é uma senhora que recentemente teve alta de seu tratamento para câncer de mama. A conheci no meio de seu tratamento e passamos por algumas consultas, onde aprendi com ela muito sobre resiliência e fé. Aceno com a mão, aviso que estou indo visitar uma pessoa e fecho a porta do carro, cuidadosamente estacionado entre o monte de areia para construção eterna das casas na ladeira e a tábua de madeira que serve como ponto de encontro para a Kombi que leva os moradores da comunidade até o asfalto.

     Cada dia de visita traz uma surpresa diferente, mas todos os dias trazem os mesmos convites: acenos da janela, cumprimentos com a cabeça e café com biscoito. Lá de cima, acima dos arranha-céus, acima da turbulência da cidade, parecemos estar numa cidadezinha do interior. A imensa porca largada sonolenta próximo à escada da pracinha só faz reforçar essa impressão. Passamos por ela, a Agente de Saúde e eu, evitando as poças d’água da manhã chuvosa. A comunidade ainda acorda: janelas fechadas, pessoas saindo pra o trabalho, pessoas voltando cansadas. Já conheço a maioria pelo nome, sobrenome e histórico familiar. Um deles está na porta de casa, de pijama surrado e chinelo de dedos, com uma caneca de ágata numa mão, coçando a cabeça de seu cachorro com a outra: “O que que o senhor arrumou aí nesse olho?!” “Eu caí, menina! Logo ali no portão de casa…” me aponta com a caneca o umbral do portão, onde tropeçou. Primeira consulta do dia, ali mesmo, na calçada. Segundo convite para tomar café com biscoito.

      Mais adiante cruzamos com uma gestante que faltou a última consulta agendada, com cara de moleca risonha já dizendo que descobriu o sexo do bebê. A Agente de Saúde a lembra do retorno e conversam sobre levar o companheiro para uma avaliação do “pré-natal do parceiro”. Paro para olhar as anotações do dia e passa por mim uma bola de futebol, seguida de uma dupla de irmãos: “Oi médica! Você veio dar injeção hoje de novo?” Se referiam à campanha de vacinação do último mês, onde a nossa equipe de saúde ofereceu aplicação das vacinas na escola municipal onde estudam. A avó deles está observando do portão, chamando para os meninos saírem da chuva. Aceno pra ela, aviso que tinha saído a marcação do exame que tanto aguardávamos. Ela me sorri de volta, perguntando se não tínhamos tempo para lanchar, um bolo, um cafezinho, suco, pão com manteiga, iogurte… Coisas de avó matriarca.

       Chegando na casa da paciente em questão, já estavam nos esperando. Olhos ainda um pouco grudados pelo sono, mas a dispostos a passar pelo atendimento e pelas perguntas exigidas para realização de investigação de óbito. Se tratava de uma visita para abordar o luto de uma pessoa querida, que se foi rápido demais. Ouvidos atentos, olhos marejados, sofremos juntos com a família. Aproveitamos para recordar dos bons momentos vividos e da lembrança boa que ficou. A melhor coisa do dia de visita domiciliar é que você já não se sente como visita: senta na beira da cama, olha nos olhos, ajuda a encontrar os documentos na pastinha de exames. Fazemos exame físico ali no próprio leito da pessoa, o lugar mais confortável do mundo. A simplicidade de fazer parte fortalece vínculo e aumenta a autonomia das pessoas, que nos retribuem com confiança e amor.

          Quando descemos do quarto para ir embora, tem café com biscoito doce em cima da mesa. Tem também satisfação e ternura nos rostos de cada um, por aceitarmos o convite dessa vez, bem rapidinho, pois ainda temos que voltar pra clínica. “Dá próxima vocês vêm com mais calma, que ele prepara uma tapioca boa daquelas, viu?”

      Fico me perguntando: quem cuida de quem, nas visitas domiciliares? É a melhor parte de ser Médico de Família.

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Um comentário sobre “Café com Biscoito

  1. Fico super emocionada de ver na pessoa generosa e incrivelmente humana em que se tornou essa linda criatura que em não muito tempo atrás eu cantarolava cantigas para ninar seu sono em meu colo. Que orgulho meu Deus!!! Abençoada seja toda sua vida!

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