Aborto social

por Maria Carolina Falcão

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A unidade em que trabalho é responsável pelos cuidados de saúde de todos os moradores da área adscrita. Dentre eles, um grupo volante de meninos entre 6 e 17 anos que são abrigados em um lar filantrópico. Volante, pois todos estão em situação de abrigamento por terem sido afastados dos cuidados familiares. Muitos vêm e vão e vêm novamente, seja por fugas arquitetadas por mentes adultas em corpos infantis ou por decisões judiciais. Alguns sabem mais da vida do que jamais saberei. Outros perderam a inocência da infância logo ao nascimento. Um fez a primeira tatuagem aos nove anos. Outro está no segundo tratamento para sífilis.
Semana passada foi a consulta de um deles com a psicóloga lá na clínica. Nos seus doze anos de vida, está em abrigos há 10. Por ter nascido com sequelas pelo abuso de bebida alcoólica durante sua gestação, faz uso de algumas medicações. Por fazer uso de algumas medicações, tem atraso no desenvolvimento escolar. Por todos os motivos anteriores, ainda aguarda na fila da adoção. Acabou se tornando um frequentador assíduo da clínica, tem o temperamento doce e, sempre que pode, distribui abraços para equipe. Nesse dia não foi diferente: “Oi tia! Me dá um abraço?” “Claro, meu amor!” Ele sempre me dá ótimos abraços, daqueles que apertam mais no final, como quem não quer largar. O dia estava corrido, eu andando pra lá e pra cá, mas sempre que eu passava por ele, recebia um aceno ou um beijinho estalado, enviado pelo ar.
Lá pelas tantas, depois de liberar um paciente, deixo a porta entreaberta antes de chamar o próximo. Ele chega e vai entrando pela fresta: “Tia, você tem filhos?” Sinto um aperto no pé da barriga, lá onde fica o útero… penso no meu planejamento reprodutivo, no DIU, no trabalho, no desejo de ser mãe quando achar ser mais oportuno. Lembro como foi uma decisão estudada e penso nas tantas adolescentes que nem sempre compreendem a matemática do uso do anticoncepcional oral pela triste realidade educacional em que vivem. As mulheres que sofrem toda a pressão de pedir pelo uso do preservativo e serem negadas. Ou aquelas ainda cujas mentes estão tão envoltas pela névoa da droga ou do álcool ou da fome, cujos corpos não tem mais significado e o sexo vira moeda de troca… Penso na liberdade negada, no planejamento impossível, nas consequências esquecidas.
“Não, ainda não tenho…”
Ele já está de pé ao lado da mesa, brincando com meu carimbo: “Você bem que podia me adotar, né?”
O chão se abre e só consigo fazer sorrir e abraçá-lo mais uma vez, o mais forte que consegui.
A psicóloga vem chamar para a consulta e ele me dá um beijinho no rosto. O vejo abanar a mão, dando tchau, me deixando afundada na cadeira, com um novo aperto. Dessa vez, do ladinho esquerdo do peito, lá onde fica o coração.
“Obrigado, tia!”
Obrigada você.

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