Enquanto rolam as discussões no Supremo…

por Eberhart Portocarrero Gross

Vem o casal, ela com 15 anos, ele com 16. Hoje não trouxeram a filha, que já está com quase dois anos. Entre outras coisas, ela comenta da menstruação atrasada. Na hora, após uma breve e desconfortável conversa, fazemos um teste de urina para gravidez. Positivo. Olham de novo. Positivo. Os olhos vão para o chão, para o teto. Transbordam as lágrimas.
– Não vamos poder ter esse filho agora, um diz, o outro concorda. Não há dinheiro, não há tempo – ambos tem que trabalhar para sustentar a filha que já têm e a si mesmos.
Conversamos sobre a possibilidade de apoio familiar, de oferecer para adoção, mais alternativas. Todas inviáveis para o casal.
– No fim, se vier, vou ter que criar, diz o pai, tenso. Não há mais o que pensar.
Ela olha para ele, e depois além dele.
– Não tem jeito. Deus que me perdoe. Vamos ter que tirar. – Chora mais. Ele concorda em silêncio. – Eu sei que é errado, e que pode ser perigoso. – Engole saliva, olha para a parede. – Eu sei que tem que fazer logo, eu sei que pode dar vários problemas, que muita gente faz errado… – De súbito ela se volta para mim, os olhos grandes, como se me notasse naquele momento:
– Como é o jeito certo de fazer?

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