Doutor Ernesto

por Antônio Modesto

Para Arthur

Ernesto era o tal “médico de família das antigas”: fez residência em Medicina Preventiva (a Geral Comunitária não existia na época, muito menos a de Família e Comunidade), foi médico de vila de pescadores e de aldeia rural, e hoje clinicava na cidade. “Até quando der”, dizia. “Vinte horas por semana eu dou conta”. Viúvo, filhos formados, netos vacinados e alfabetizados, ele sabia que estava nesse mundo até quando desse.

Atendeu esses dias uma mulher de trinta anos.

“Em que eu posso ajudar hoje?”

“Doutor Ernesto, eu tenho muita dor no pé quando esfria”

“Dor no pé quando esfria?”

“É. Não é qualquer frio, né, normalmente acontece quando está menos de dez graus”

“Nos dias mais frios de inverno, então”

“Ou quando eu viajo para lugar frio, tipo fim-de-semana na serra, sabe?”

“Claro. E quando está menos frio, uns quinze graus…?”

“Aí normal, sinto frio normal, mas meus pés não doem”

“E quando dói, você faz o quê?”

“Aí eu tenho que colocar meia”

“E quando você coloca meia…?”

“Aí a dor passa”

“Hum…”

“Só que meu namorado acha feio mulher dormir de meia, então eu queria ver o que que eu tenho, se tem algum tratamento, não sei…”

“Entendi. Mais alguma coisa te incomoda?”

“Não”

“Posso te examinar?”

“Pode!”

Mediu a pressão arterial e a frequência cardíaca; ouviu coração e pulmões; palpou pulsos centrais e periféricos;1 pediu que ela elevasse e abaixasse os membros inferiores para avaliar sua perfusão periférica – assim como fizeram médicos e médicos e médicos por gerações antes dele.

Fez perguntas enquanto a examinava. Nada mais a incomodava além da dor nos pés quando fazia menos de dez graus.

 

* * *

 

Um mau clínico não suportaria deixar aquela mulher sem algum diagnóstico. Diante de um exame físico praticamente normal – a mulher tinha a circulação um pouco lenta nas pontas dos dedos dos pés, mas as artérias dos seus pés pulsavam normalmente – daria início a uma cascata que começaria com exames reumatológicos, passaria por um ultrassom doppler de membros inferiores e poderia chegar até a uma polissonografia. Se depois de tudo isso não tivesse chegado a um diagnóstico ou encontrado um problema novo que desviasse a atenção, teria então a tranquilidade de escrever

 

HD: DOR EM MM.II. IDIOPÁTICA – ANSIEDADE?2

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a vida e chamaria a próxima.

 

* * *

 

Um clínico muito virtuoso não desperdiçaria exames. Ao contrário, examinaria a mulher de cima abaixo, incluindo todos os seus reflexos e alguns testes de sensibilidade térmica e dolorosa. Dispensaria exames reumatológicos, porque “a clínica é soberana” e não havia critérios suficientes para essas doenças, mas talvez solicitasse um doppler de membros inferiores, porque insuficiência arterial periférica era um diagnóstico possível e errare humanum est. Doppler normal, registraria no prontuário

 

HD: DOR RECORRENTE EM MEMBROS INFERIORES IDIOPÁTICA. ANSIEDADE?

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a dor e lamentaria secretamente não ter sido uma doença rara que gerasse um relato de caso.

 

* * *

 

Doutor Ernesto era um bom clínico, com a visão e tranquilidade dada pelos anos, pelos filhos formados, pelos netos vacinados e alfabetizados, pela esposa que morreu. Após examinar a mulher, disse:

“Isso que você tem não é doença, é uma característica sua. Tem gente que tem mais frio no pé, tem gente que tem menos. Se piorar, me procure. Enquanto isso, vou te recomendar uma coisa”

E escreveu em um receituário

 

RECOMENDAÇÃO MÉDICA

USAR MEIAS SEMPRE QUE A TEMPERATURA AMBIENTE FOR MENOR OU IGUAL A DEZ GRAUS.

 

Datou, carimbou, assinou, explicou a recomendação e, ao entregar a receita, olhou a mulher por cima dos óculos e disse:

“Ah… E manda seu namorado se catar”

 

* * *

 

1 Por exemplo, carótida (central) e punho (periférico).

2 Traduzindo, “hipótese diagnóstica: dor em membros inferiores sem causa definida, possivelmente relacionada a ansiedade”.

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