O dia em que não quis ser internada

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Esse causo é algo interessante, como é difícil ser médico (daquele formado numa faculdade de alta relevância aqui e fora, conhecedor da biologia, dos fatores de risco e tudo mais), mas ao mesmo tempo ser de Família e Comunidade (conhecedor de gentes e contador de histórias como diz uma pessoa próxima..).
Contaremos então uma das histórias de uma paciente que vi muitas e muitas vezes, em casa, fora de casa, na unidade..  Uma daquelas pessoas de carinho fraternal, de conversa apenas com os olhos, que a gente não precisa de muito para fazer muito, sabem? Essa é Dona N.
Por esses dias ela veio na unidade contar que passou no hospital para fazer exames pré-operatórios de um câncer de útero (esse causo é outro e ainda virá).. Veio contando a nós que não estava passando muito bem, um pouco de cansaço, dor no peito, mal estar. Também tinha ficado o dia todo anterior no hospital, feito, 1, 2, 3 eletrocardiogramas (todos com ela), e quase a internaram ontem mesmo porque a frequência do coração estava 34 batimentos por minuto (o mínimo aceitável é 50!!). Mas liberaram, não estava sentindo nada..
Conversei com ela, confirmei que estava devagarinho aquele coração sofrido, mas feliz(!), estava 42 batimentos naquele momento.

– Dona N. com esse coração desse jeito, esse mal estar da senhora, não vai ter jeito, vamos ter que te internar hoje.
– Mas Dr. Luca (ela às vezes esquecia o S… Tudo bem, era carinho mesmo…), eu não posso internar hoje, não estou pronta, tenho muita coisa para resolver em casa.
– Mas é perigoso a senhora voltar pra casa, já aconteceu isso antes, conversamos sobre isso.
– Sim Dr, eu sei, eu sei que posso morrer em casa, sei que estou assumindo esse risco. Mas eu estou calma quanto a isso, estou feliz quando a isso. Eu quero assumir esse risco. Você sabe porque, eu tenho o Zé em casa (seu marido acamado), e ele depende de mim. Eu preciso ir para casa, pelo menos para organizar a minha vida, e a vida dele.

Ahh decisão difícil, saber que ela precisa dessa internação, que ela tem muito risco de morrer, de sofrer, mas ao mesmo tempo ver aqueles olhos sofridos, ver aqueles olhos “pedintes igual criança pedindo doce”, saber que o Zé precisa dela e ela dele (apesar de tantas peripécias e dificuldades da vida de ambos..). Biologia versus família, formação versus coração. Qual seria sua escolha? Acho que vocês já sabem da minha (está no título caro leitor…)
 – Ok Dona N, não vamos te internar agora, você sabe as coisas boas e ruins de internar, as facilidades e dificuldades que já passamos um bom tanto de vezes com essa história né?
– Sim Dr Luca, muito obrigado pela escolha (e os olhos brilharam…). Assim que eu resolver tudo eu volto, eu prometo.

3 dias depois ela volta, Dr Luca: eu estou pronta, vamos internar? E ela estava com a frequência 140 hoje…

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