Água Santa

perdão
   Último atendimento da tarde, entra para consulta pai e filho. Trazem os capacetes no braço, proteção para a descida de moto, ladeira abaixo. O pai, aponta para o filho bem moço com a sacolinha de exames:
– Veio meu responsável comigo hoje de novo… É duro, senhora, os outros num tem vindo mais… Esse aí é o único que me toma conta.
    Ele me chama de senhora todos os dias que me vê, mesmo tendo idade para sermos avô e neta. Coisas de gente antiga, ele me diz. Todos os dias também fala com tristeza da falta de união familiar, da saudade, da respiração. Tem que ficar no batente da porta pra se sentir melhor, ver as pessoas na rua e botar ar pra dentro.
    O filho responsável mostra os exames de avaliação cardíaca: insuficiência de válvula, aumento das câmaras, hipertrofia… Queixava desde o início do ano de abafamento no nariz e entupimento no cérebro. Urina solta, uma falta de vontade de comer e inchação nas pernas. Eletrocardiograma alterado, iniciamos medicação no mês passado. O cansaço do dia-a-dia permanece, mas tem conseguido capinar a frente da casa. Ainda bem, ufa! Digo que precisamos ajustar alguns remédios que vão ajudar o coração funcionar melhor.
     Hoje acha que está mais esquecido que o normal e o bendito entupimento no cérebro etá pior, desceu pro peito! Pergunto em que rua mora e em que cidade estamos. Me conta que tem saudades de Água Santa, desde que veio morar em Vila Isabel. Peço pra me dizer em que mês e dia estamos e me conta que amanhã vai fazer aniversário e, finalmente, o resto da filharada vai se encontrar. O ar tem faltado, mas amanhã vai valer o esforço…
Já que ele tem estado esquecido, falo 3 palavras e peço para ele guardar na cabeça:
– Senhora, tem coisas que a gente não esquece não…
   Deixo a triagem de demência de lado:
– E o quê que tá na cabeça do senhor?
    O olho mareja… A ex esposa que ficou lá em Água Santa.
– Nunca pedi perdão pra ela.
    Conta o que nunca tinha contado pra ninguém. Fala que o perdão é mais pra quem pede do que pra quem dá e que agora, com 85 anos, tem medo de não ter tempo mais pra nada. Tem medo do coração falhar na hora, tem medo do ar faltar, tem medo de não saber. Me pergunta se o remédio que eu mudei vai fazer ele sentir mais amor.
Eu pergunto o que ele acha de visitar Água Santa no domingo.
O filho sorri:
– O entupimento deve até melhorar…

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