Seu Sérgio e Dona Dora

por Ana Beatriz Cavallari Monteiro

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Era por volta de 3 horas da tarde de uma quinta-feira. Quando chamei pelo nome, Seu Sérgio entrou no consultório acompanhado de sua esposa, Dona Dora. Perguntei como poderia ajuda-los naquela tarde e ele disse que tinha vindo para uma consulta de rotina que foi marcada pela ACS. Me contou que tomava remédio pra pressão e pra enxaqueca, mas que estava há vários anos sem crises. Perguntei então se ele estava sentindo alguma coisa diferente nos últimos tempos e ele disse que não, se sentia bem. Logo depois, porém, lembrou de falar que estava percebendo que as pernas estavam mais inchadas e que as vezes se sentia um pouco cansado. Comecei a fazer algumas perguntas sobre outros sintomas tentando encaixar o Seu Sérgio em alguma doença (Insuficiência cardíaca? Insuficiência renal? Cirrose hepática?…).

Quando questionei se ele bebia ou fumava, prontamente respondeu que não. “Só me divirto com a minha esposa, doutora. Sabia que somos casados há 48 anos?” Respondeu dando um sorriso carinhoso para Dona Dora, que então retribuiu com outro sorriso. Depois daquela conversa inicial, comecei a examinar o Seu Sérgio. Os pés realmente estavam inchados. Edema 3+/4+ (com cacifo bem importante)…Ausculta cardíaca…Opa! Tem um sopro aqui! Observando melhor a pele do paciente parecia levemente amarelada (seria icterícia?). Só depois percebi que na verdade ele estava (bem) pálido. Palpei pulsos, fiz ausculta respiratória, pedi que deitasse na maca para examinar o abdome e…caramba! Tinha um baço enorme. Provavelmente o maior que eu já tinha palpado, chegando até perto da cicatriz umbilical. Palpei mais uma vez pra ver se era isso mesmo. E era. Coloquei a mão do Seu Sérgio na barriga dele e perguntei se ele já tinha percebido algo diferente ali. Ele disse que não. Expliquei aos dois que tinha percebido algumas coisas de diferente no exame físico dele e que precisava discutir o caso com os meus preceptores. Quando eu ia saindo do consultório Dona Dora comentou: “Doutora, ninguém nunca tinha examinado o meu marido assim. A senhora é muito boa!”

No caminho até a salinha dos preceptores muitos pensamentos passavam em minha cabeça. Comecei a discutir então com dois preceptores e disse que uma das minhas hipóteses era Calazar e que estava pensando em pedir um hemograma na UPA…“Calazar? Não é muito comum aqui no Rio né?” – disse um deles. “Será que não é uma doença hematológica?” – sugeriu a outra preceptora.
Voltei no consultório e expliquei que precisaria pedir o exame pra ele fazer naquela hora e perguntei se tudo bem eles esperarem pelo resultado que demoraria entre 1-2h. Eles tranquilamente disseram que sim. Continuei atendendo os pacientes naquele turno e algumas vezes, ao sair do consultório, pude ver Seu Sérgio e Dona Dora papeando na porta da clínica.

Algum tempo depois, durante a consulta de outro paciente, uma pessoa bateu na porta do consultório. Era o técnico do laboratório pedindo que eu o acompanhasse. “É meio urgente”- ele disse. Quando chegamos ao laboratório ele pediu que eu olhasse no microscópio e perguntou se eu sabia identificar o que via ali. Óbvio que eu não sabia. Ele respondeu dizendo que a medula do paciente estava “explodida” – 58.000 leucócitos, muitos blastos, Hemoglobina de 5,7 e 60.000 plaquetas. Voltei imediatamente para a salinha dos preceptores pra mostrar o exame. É, realmente estávamos diante de uma doença hematológica, provavelmente uma leucemia, e agora eu precisava dar a notícia pra eles.

Chamei Seu Sérgio e Dona Dora de volta pro consultório e comecei a, calmamente, gastar todas as técnicas de consultas e comunicação de más notícias que eu tinha aprendido até ali. Expliquei que o exame do Seu Sérgio mostrava tinha algo errado com a medula dele. Expliquei que a medula é o órgão que produz as nossas células do sangue e que como a dele não estava funcionando bem, ele tinha uma anemia bem importante. Expliquei também que o cansaço, o inchaço nas pernas, o sopro no coração e o aumento do baço era tudo consequência desse problema na medula. Disse ainda que a nossa principal hipótese era leucemia. “Vocês já ouviram falar sobre isso?” – perguntei. Durante todo esse tempo Seu Sérgio e Dona Dora me olhavam em silêncio com um olhar de dúvida. Pela primeira vez naquela tarde ele não sorria. Disseram que já tinham ouvido falar sobre a doença, mas que não sabiam bem do que se tratava. Eu fiquei por alguns milésimos segundos me perguntando se eu devia ou não falar naquele momento que leucemia era um tipo de câncer. Mas sim, achei justo que soubessem.

“Câncer???” – disse Seu Sérgio elevando o tom de voz. “Doutora, eu não posso ter câncer!! Eu não sinto nada! Eu vim só pra uma consulta de rotina. Quem tem câncer está em cima de uma cama, sofrendo com dores. Eu não sinto nada!” – dizia ele batendo no peito. Dona Dora então começou a dizer que não acreditava no resultado daquele exame, que o laboratório devia ter trocado o sangue dele com o de outra pessoa e que preferia que ele repetisse o hemograma em um laboratório particular pois não confiava no laboratório da clínica. Novamente tentei explicar para eles que apesar de não se sentir doente, ele apresentava todas aquelas alterações no exame físico e o exame de laboratório só confirmava o que nós já suspeitávamos. Quando falei que precisaríamos interna-lo (Sim! Na minha cabeça ele precisaria de uma biópsia de medula urgente pra fechar o diagnóstico e começar logo o tratamento) Seu Sérgio e Dona Dora não concordaram nem um pouco com a ideia. Uma de suas netas estava com o parto agendado pra dali a 3 dias, eles precisavam dar suporte a ela. Se Seu Sérgio ficasse internado tudo seria mais complicado.

Eu mandei então uma mensagem desesperada pro meu preceptor (que já estava sabendo do resultado do exame que eu havia mandado por mensagem) dizendo: “Socorro! Ele não quer internar! Me ajuda!”, ao mesmo tempo que fui na salinha pedir ajuda pra outra preceptora que estava lá. Nós três juntos voltamos então ao consultório. Nesse momento Seu Sérgio parecia com tanta raiva de mim que nem me olhava no rosto. Nós conversamos com eles por um longo tempo, explicando calmamente a importância daquela internação e todos os riscos envolvidos, porém os dois continuavam irredutíveis com a ideia de não internar e de repetir o exame no laboratório particular. Em um determinado momento percebemos que não conseguiríamos convencê-los e respeitamos a decisão do casal. Dei o pedido do exame de sangue e disse que eles poderiam nos procurar quando quisessem.

Naquela hora surgia dentro de mim uma mistura de frustração e raiva e eu só pensava: “Caramba! Eu não acredito nisso! Eu fiquei a tarde inteira tentando ajudar, examinei ele com tanto cuidado, gastei mais de 1h explicando o que estava acontecendo e eles não confiam na nossa avaliação?”. Seu Sérgio mal se despediu de mim, parecia realmente chateado, como se eu tivesse colocado a doença nele. Dona Dora me abraçou pedindo desculpas pela grosseria, pediu que eu entendesse e disse novamente: “Ninguém nunca examinou meu marido assim”. Assim que eles saíram eu desabei a chorar. Chorei de soluçar, enquanto os meus preceptores me abraçavam e consolavam. Apesar da decisão ter sido deles, eu me senti totalmente impotente. Fiquei a noite e o dia seguinte inteiro pensando neles, ainda desconfortável com aquela situação.

Dois dias depois era sábado. Eu estava escalada pros atendimentos na clínica e já no final da manhã Seu Sérgio e Dona Dora chegaram afobados com um resultado de exame em mãos. “Doutora, nós repetimos o exame do Sérgio no laboratório particular. Eles acabaram de ligar de lá dizendo que o exame estava muito alterado e que a gente precisava procurar um médico urgente! Por favor, interna ele!” – dizia Dona Dora. Eu respirei aliviada por eles terem voltado logo. Então perguntei: “O bisneto de vocês nasceu?”. Eles disseram que não, a cirurgia seria no dia seguinte, mas não tinha problema, podia internar ele assim mesmo porque agora eles entendiam que a situação dele era grave. Eu pensei por uns minutinhos e disse: “Vamos fazer o seguinte…vão pra casa, vejam o bisneto de vocês nascer, curtam esse momento. Segunda feira bem cedo vocês voltam e a gente pede a ambulância”. Acho que eles ficaram bem chocados com essa fala, afinal dois dias atrás eu tinha tentado usar vários argumentos pra interná-lo naquele momento.

Na segunda-feira cedinho eles estavam lá. Já com um ar mais tranquilo e conformado (e até com um sorriso no rosto), foram de ambulância até o hospital pra que de lá tentassem uma vaga em algum serviço de Hematologia. Ficaram por lá durante 5 dias (literalmente tomando só soro na veia) e nada. Nem uma transfusão de sangue. Receberam alta com orientação de conseguir encaminhamento pela Clínica da Família. Começou então a nossa saga de tentar conseguir uma vaga de internação eletiva. Essa angustia durou mais ou menos uma semana, até que por meios não convencionais eles conseguiram uma consulta no Hemorio, onde Seu Sérgio passou a ser acompanhado.

A biópsia de medula demorou algumas semanas pra sair. E não, o diagnóstico não era Leucemia. Era Mielofibrose, uma doença que eu nunca tinha ouvido falar. Comecei a estudar sobre o assunto pra poder ficar mais por dentro do cuidado do Seu Sérgio. Soube que o tratamento era caríssimo, cerca de 15.000 reais por mês, e certamente eles não teriam como pagar. A cada 15 dias eles compareciam no Hemorio para uma nova transfusão de sangue, mas não sabíamos ao certo quanto tempo de vida ele ainda teria sem a medicação adequada. Começou a usar então uma outra medicação que conseguiu estabilizar o quadro (o baço começou a diminuir, as transfusões começaram a ser mais espaçadas..). E a vida foi seguindo, alguns dias melhores, outros piores. Seu Sérgio e Dona Dora passavam com frequência na clínica pra me dar notícias sobre seu tratamento. E ele estava sempre com o sorriso no rosto.

Há umas duas semanas recebi a notícia que seu Sérgio estava internado. Parecia que as coisas não iam muito bem, estava no CTI, intubado, com os exames bem ruins. No fundo, apesar de saber da gravidade do caso, eu sentia que ele ia sair dessa. Achava que só ia receber a noticia da sua morte alguns anos depois que terminasse a minha residência. Mas essa semana Seu Sérgio nos deixou, deixando também partido o meu coração. Imediatamente lembrei de Dona Dora. Lembrei de todo o cuidado que ela tinha por ele e sofri ao pensar nessa separação depois de tantos anos juntos (sim, foram 11 de namoro e 49 de casamento, sendo o último aniversário quando ele já estava no CTI, ainda lúcido). De alguma forma, não sei bem explicar o porquê, Seu Sérgio e Dona Dora ganharam um espaço muito especial no meu coração. Eles me fizeram crescer como médica e como ser-humano e me ensinaram sobre amor, cuidado e valorização da família.

Hoje, desejo que Seu Sérgio esteja com Deus, num lugar muito especial. E que um dia eu e Dona Dora possamos encontrá-lo por lá também, sempre com seu sorriso no rosto.

Um comentário sobre “Seu Sérgio e Dona Dora

  1. Ana Beatriz, esse caso parece ter te ensinado coisas que nenhum livro sobre consultagem, nenhum manual de comunicação de más notícias, nenhum preceptor poderia ensinar. Durante a leitura, só me veio à cabeça uma frase: “Felicidade é urgente. A tristeza pode esperar”.

    Não sei se esse comentário te alcançará, mas se algum colibri puder te levar essa mensagem sugiro a leitura desta pérola de J.J. Camargo: “A tristeza pode esperar”.

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