Era apenas para ver o nascer do sol

Foto de Rodrigo Lima

por Romulo Alves*

Sábado se acabando. Junto com ele a festa do congresso sul-brasileiro de medicina de família e comunidade em Floripa. Subversiva, festa muito boa com músicas legais e pessoas divertidas. Vamos comer alguma coisa no posto de gasolina e depois ir pra praia do Campeche ver o nascer do sol?! Eu mais sete pessoas animamos. No caminho ao posto e durante o tempo que ficamos lá trocamos muitas ideias, nos apresentamos uns(umas) aos(às) outros(as). E dali começou a fortalecer um sentimento de amizade e afeto gratuitos. A MFC como sempre firmando vínculos e estabelecendo conexões.

“Vamos, gente, pra praia? Já são 5h30!”, falo pra nos apressarmos e irmos logo à praia. Estava ansioso pra ver a paisagem. E assim fomos munidos de muito carinho uns(as) pelos(as) outros(as). Chegando lá continuamos conversando, ouvindo música, nos amando, abraçando, contemplando o céu e o mar. Éramos a gente somente. Nós e o mar…

O dia foi nascendo e junto com ele a praia começou a ser ocupada por outras pessoas. Um olhar estranho ali, outro acolá, mas não ligamos e continuamos deitados (as) na areia e conversando, rindo, nos conhecendo. Foi passando o tempo e alguém teve uma ideia genial. “Vamos tomar um banho no mar!?”, uma das gurias fala bem animada. “Vamos todos (as)!”. “Mas não estamos com roupas de banho!”. “Ué? Não tem problema! Vamos de calcinha, sutiã e cueca mesmo, não tem problema algum, gente!”. Assim fomos, água gelada, mar um pouco revolto, sol tímido ainda brincando de esconde-esconde com as nuvens. Brincamos, jogamos água um(a) no(a) outro(a), contemplamos aquela imensidão…

Ao voltarmos à praia, corpos molhados, friozinho na pele, Vinícius me pede um abraço. “Está frio, Romulo, me abraça”. E assim o fiz. Rapidamente percebemos uns caras que estavam de longe apontando para nós. Vinícius fala que estão comentando sobre a gente. Fico indignado e digo a ele que não vamos nos largar, vamos continuar no abraço aquecedor e também tomo mais uma atitude: dou um beijo nele.

De repente esses caras descem para o nosso rumo e começam a nos agredir verbalmente. Falando que a praia é deles, que não tinha problema se a gente gostava de dar o cu. Mas que a gente tinha que se vestir naquele instante, porque a mulher dele estava descendo pra praia e não queria que ela visse essa pouca vergonha. Na hora as demais pessoas que estavam conosco começaram a defender a gente dizendo que ninguém ia se vestir, que eles não eram donos da praia e que estavam sendo, mesmo eles negando veementemente, bastante preconceituosos.

Mistura de indignação, perplexidade e constrangimento, vi que estavam descendo mais dois caras. E os que já estavam nos insultando começaram a aumentar mais ainda o tom de voz e a feição de ódio. Nesse instante percebi que nossos argumentos estavam em desvantagem e seriam em vão com aquelas pessoas.

Continuaram as ameaças e agressões verbais. Eu já tinha colocado a camisa e estava pegando a calça na areia, quando de repente eu ouço “já falei pra ir embora, viado!”. Ainda com o corpo inclinado para o chão, olho para a frente e num piscar de olhos só consigo ver o olhar de ódio de um dos caras vindo ligeiro para o meu rumo e me acertando em cheio um soco em gancho que atinge todo o lado direito do meu rosto.

Pronto. Estava liberada a licença social para eles começarem a agredir mais uma colega e um colega. No mesmo momento outras pessoas que estavam próximas encorajaram-se para também vir nos agredir. Atordoado ainda com o golpe, perco meus óculos na areia e a visão direita embaçada. Começo a me desesperar, “e se tiverem alguma arma com eles?”. E o medo cada vez mais se apoderando de mim. Chamo todo mundo para nos distanciarmos. Alguém liga pra polícia. Chegam em 10 minutos. Perguntam o que houve. “Estávamos nos abraçando quando tudo começou!”, disse Vinícius. Um policial retruca: “mas então vocês se abraçaram para provocar eles?”. Não acreditei no que ouvi. Agora a culpa de termos sido agredidos por uns escrotos foi nossa?!?

“Queremos ir lá para mostrar os agressores!”, porém os policiais recusaram, usando a desculpa de que seria perigoso para a gente. Eles estavam com duas viaturas. Inacreditável. Mas não podíamos obrigar eles. Fomos para a delegacia mais próxima. Prestamos depoimento e registramos os boletins de ocorrência. “Queremos fazer exame de corpo de delito”. “Somente em horário comercial e de segunda a sexta”. “Não é possível isso!”. “Sinto muito, mas são as normas. Para se fazer exame de corpo de delito via plantão policial, os PM deviam ter levado vocês ao local e terem pegado os responsáveis pelo ato violento”. “Mas os PM não deixaram a gente mostrar os agressores para serem pegos como flagrante!”. “Eles agiram de forma errada”.

E assim a indignação continuou a crescer, junto com a sensação de impotência perante esse órgão repressor e pouco efetivo quanto ao combate às opressões na sociedade. “PM para quem? O que ou quem ela protege?”. Fico refletindo sobre tudo isso, mas sem nenhuma resposta. Vou embora da delegacia com lágrimas nos olhos, pensando sobre o ocorrido…

Um abraço e um beijo, símbolos que demonstram afeto e carinho. Um abraço e um beijo que fizeram meu rosto ser maculado. Será que não posso mais demonstrar carinho e afeto e ser realmente quem eu sou na sociedade? “A placa de censura no meu rosto diz: NÃO RECOMENDADO À SOCIEDADE”. Mas não deixarei isso me reprimir ou deixar de me fazer lutar todos os dias contra a homofobia.

Terão muitos abraços e beijos SIM!

E ainda quero ver o nascer do sol.

 

* Romulo Alves é MFC em Brasília.

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