A Morte me ensinando a ser gente

 

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Por  Clayton*

 

  Fui chamado, junto da médica, para atestar o óbito de um paciente na zona rural. Fomos no carro seguindo as estradas de terra batida e poeira fina que lacrimeja os olhos.

   Dona T, a esposa do falecido, nos acompanhava no carro. Nos olhos e na fala de gente simples, a esperança de ele só estar imóvel, dormindo e ainda vivo.

  Chegamos ao local: uma casinha pobre, com um puxadinho acessório de porta de madeira. Adentramos ao local frio e gélido, como o corpo estendido na cama. O corpo meio cá e meio lá na cama, quase caindo, mostrava uma fácies de dor e sofrimento – Provavelmente ele sofrera em sua morte.

  O corpo duro, igual ao chão da casa. Os olhos vidrados abertos e secos, igual à terra batida. Observo atentamente uma mosca pousar nos olhos vítreos e me dá uma sensação ruim. Lembro-me das minhas aulas de Parasitologia Veterinária e o quanto eu gostava do assunto. Lembro imediatamente do nome científico: Musca domestica, e do quanto detesto este bicho. Na minha terra chamam-no “Mosquito”, apesar de ser mosca, praga, necrófaga sugadora de secreções pútridas cadavéricas, praga! Espanto-as do cadáver e examino o mesmo: sim, falecera.

  Dona T acompanha tudo e não fala nada, nem chora. A comadre e a vizinha adentram ao recinto apertado. Apertado encontra-se meu coração: não pela morte em si, mas pela simplicidade daquela gente. Dona T usa chinelos “de dedo” duros e finos, gastos, daqueles com uma tira de cada cor. Olho suas unhas com onicomicose, em seu pé sujo de mulher trabalhadora. Sinto pena da pobreza que agora se junta à solidão. – “Já ligou pra funerária? – O vereador T. já foi informado e vai providenciar tudo”.

  Me dói ouvir que nem condição de dar destino ao paciente esta gente tem. Olho novamente para Dona T que me olha com olhar terno e corta meu silêncio: – “O sinhô está estudando pra ser dotô?” – “Sim, lá em Viçosa” –“Que Deus te abençoe muito. Ele vai abençoar. Você vai ver”. Dona T me viu sentir mais dor que ela própria sentira e resolveu me consolar com este minidiálogo.

   Sinto-me triste não pela morte ou pelo luto, mas por esta gente pobre, que mora longe e não tem nada. A médica pede então os documentos para a burocracia e preencher a papelada. Na bolsa surrada que Dona T colocava contra o peito, surge um cartão do SUS, um CPF e carteira de trabalho. Descubro então que o paciente nem RG tinha. Tão esquecido pela sociedade, legalmente e em matéria de morada, olho pros lados e vejo montanhas e me vem novamente a imagem da solidão. As pessoas ali não sabem como proceder para dar desfecho ao defunto que já estava sendo devorado novamente pelas moscas. As falas começam, e eu com meu coração apertado por não poder fazer nada.

  Imediatamente, então, que eu falo para Dona T entrar no carro conosco pois voltaríamos para a cidade e levaríamo-na à Prefeitura e à Funerária para tomar as providências. Começo a refletir e vejo que não foi uma atividade do meu estágio em Medicina, mas foi uma atividade de estágio de Amor ao próximo, de ajudar, de ser compassivo, algo inerente a qualquer profissão, a qualquer pessoa, a qualquer ser humano.

   No caminho de volta, dentro do carro, olho meus olhos no vidro do banco de trás. Eles estão marejados. Neste curto espaço de 20 minutos até a cidade, percebo que Dona T e outros tantos não têm a quem recorrer na vida, nem na morte. A médica e o motorista discutem sobre túmulos, gastos e burocracias (esta hora Dona T já não estava mais conosco).

   Eu olhando meus olhos no reflexo e pensando em minha família, em Dona T, na mosca pousando nos olhos, na poeira fina, na gente sofrida, na cachorra Baleia de Vidas Secas, no cadáver, no ser humano, acima de tudo, que foi aquele paciente contorcido na cama. O que será da vida de Dona T? Não sei, só sei que me senti impotente por não ajudar mais. Me senti desigual por ter condições às quais outros não possuem. Me senti sujo por ter os pés calçados e não de chinelas de tiras diferentes. Me senti uma mosca que almeja felicidade sendo que ela já está presente. Me senti com o coração vítreo, igual aos olhos do paciente, por não abraçar e falar uma palavra mais de acalento para Dona T. Percebi que, mais do que medicina, um único dia de estágio me ensinou a ser gente!

C.N, Porto Firme-MG, 13/09/2017″

*Clayton mora em Viçosa, Minas Gerais. “Médico Veterinário de formação. Médico e um ser humano cada vez melhor em formação”

Quer mandar seu causo: causosclinicos@gmail.com

Agora também estamos no insta e no fb: @causosclinicos #causosclinicos

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