MEU MEDO É ELE LARGAR TUDO POR MIM

images
Por: Arthur Fernandes
   Uma senhorinha de 60 e poucos com carinha de 50 e tantos anos. “Conservadinha”, diriam. Ela entrou no consultório, sentou na cadeira em frente a minha, acomodou a sacola de remédios e expirou. Eu estava 60 minutos atrasado para o nosso encontro – é que o médico de família em formação foi desafiado a lidar com múltiplas demandas (clínicas e não clínicas) no encontro anterior, e os vinte minutos da consulta do residente do segundo ano não foram suficientes. Paciência. Que bom que a senhorinha teve a paciência e a bondade de esperar também.
   Depois de acomodar sua sacola de remédios e expirar, olhou para mim e aguardou mais um pouquinho. “Como posso lhe ajudar hoje?”, pergunto. “Eu vim renovar minha receita, meu filho. Eu chamo de meu filho, vá me desculpando, mas o senhor tem idade de ser meu filho mesmo”, ela diz, com um sorrisinho. “Não tem problema! Hoje é só a receita mesmo?” – este sou eu, tentando prevenir as famosas “demandas aditivas”. “Eu também queria um check-up. Faz tempo que não faço exames. O senhor sabe, moro só, vivo só. Morro de medo de ter uma coisa ruim à noite e não ter quem acuda. Já deixo o saco de remédio e o cartão do SUS separados do lado da cama. A gente nunca sabe, né?”, ela acrescenta.
   Medo, aquele afeto que pode tanto mobilizar quanto paralisar.
Pergunto se existe um porquê para tanto medo de que algo ruim aconteça. Ela respira fundo e expira pesado, outra vez. “Eu não posso ficar dependendo de ninguém, não, doutor. Só tive um filho, que mora longe. Sou separada faz muitos anos e não tenho família por aqui, só primos, tios, gente mais distante.”, ela explica. “Então a senhora é que nem minha avó, que dizia que família é pai, mãe, filho, irmão; o resto é parente!”. Ela acha graça, alivia um pouco a postura e se encosta na cadeira. “Doutor, eu tenho que me cuidar porque não quero precisar que meu filho cuide de mim. Quero que ele viva a vida dele feliz. Morro de medo de passar mal e ele largar tudo pra vir me encontrar” – agora sim, ela abre a porta da caixinha do “seu medo”.
   Peço licença para entrar: “Entendi… Posso perguntar uma coisa? Se fosse a senhora, sabendo que sua mãe está muito doente, o que a senhora faria?”. “Sinceramente? Eu jogaria tudo pra cima e ia correndo pra ela.”, afirma sem pensar duas vezes. “Mesmo se soubesse que ela não gostaria que você abandonasse algumas coisas da sua vida por isso?”, acrescento. “Mesmo assim! O senhor não faria isso pela sua mãe, não?”, ela pergunta, cravando os olhos em mim. “Faria sim. Sem nem pensar, que nem a senhora.
   Agora me diga uma coisa: se um problema sério acontecesse com sua mãe, a senhora teria opção de escolher largar tudo pra cuidar dela? E largaria, sabendo das consequências?”, devolvo a pergunta. “Eu poderia escolher, sim, doutor. Mas quando a gente ama, é fácil. A gente vai, e pronto.”, diz ela, convicta. “Então o que lhe faz pensar que vai ser diferente com seu filho? Ele não vai ter a mesma opção de escolher?”, pergunto, cravando meus olhos nela dessa vez. “Vai, doutor. Mas quando é a gente que é a mãe, a pior coisa do mundo é pensar que o filho pode deixar de viver a vida dele tranquilo pra se obrigar com a gente. Deus me livre disso pra ele!”, responde ela, emocionada. “Eu também não quero. Sei que minha mãe também não. Mas eu não sei o futuro… Então o que posso fazer é pedir a Deus que nos ajude, independente do que acontecer. Desse jeito, nem meu fardo fica muito pesado, nem o da minha mãe. Se a senhora pensar assim, será que ajuda?”, devolvo mais uma vez, agora fazendo um esforço para sustentar o olhar, que encontra outro, marejado.
   Um tempinho para encher e secar o peito.
   Um tempinho para aceitar o papel toalha e enxugar as lágrimas teimosas que insistiam em cair.
   “No final das contas, a gente vai se cuidando, e cuidando de quem a gente ama. E Deus vai cuidando de nós todos, né, doutor?”, ela resume. “Eu penso assim! Acho que alivia bastante nossa caminhada, né?”. “É, mas o senhor ainda tá muito novo. Espere pra ser pai. Eu acho que Deus sempre ajuda a caminhada da gente, mas ser pai e mãe são outros quinhentos! Se pra mim é, imagina como foi pra Maria, mãe do menino Jesus…”.
Imagina como foi pra Maria…
   Ainda conversamos mais algumas amenidades e combinamos um retorno no mês seguinte “só pra conversar” e ela saiu, com a sacolinha de remédios na mão. Não deu para desprescrever nada dessa vez, mas tudo bem, a ‘demora” é “permitida”. Foi embora com a mesma sacolinha, mas parecia mais leve. Eu “tenho pra mim” que foi Deus.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s