Gente foi feita para brilhar, não para morrer de fome (ou de bala perdida)

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Por: Nathalia do Monte Lima Grisoli 

 

Quando chego, o dia na clínica já começou. A fila para a coleta de sangue já dá voltas pelos corredores, as senhorinhas que participam da Academia Carioca já estão a postos e a recepção já está fervendo com os pacientes em busca de atendimento. Hoje é dia de VD, então caminhamos em direção ao metrô para saltarmos na estação onde começa nosso território.  A própria estação já conta um pouco sobre uma parcela da população. Houve um recuo importante das moradias mais humildes em direção ao morro devido à construção do metrô. A população foi sendo marginalizada para dar vez ao que se chama “progresso”.

   As casas foram se amontoando umas sobre as outras, o paredão de cimento e tijolos passou a colorir de cinza o que antes resplandecia azul… Apesar de tudo, a população que lá ficou tratou de colorir a tristeza da arquitetura e da segregação social com a cor mais bonita de todas: GENTE e suas histórias.

   O galo canta cedo no morro. Seu João abre a padaria 10 minutos antes para Marcinha comprar o pão do café-da-manhã da família. Ela pega cedo no batente, assim com Joana, que pega 3 conduções para chegar à faculdade. Ela nem liga. É a primeira da família a cursar uma Universidade. É um exemplo para Jonathan, seu vizinho de 10 anos. Quando crescer, também quer ser “dotô” advogado.

   E o fervo do morro continua. E lava, passa, esfrega, martela, sobe e desce as escadarias. E que escadas! São tantas e tão íngremes que Dona Ana não consegue sair mais de casa. Fraturou o quadril há 10 anos e tem artrose importante nos joelhos. Na esquina da casa da Dona Ana, o lixo se amontoa. Nem sempre devidamente ensacado, dá vez às baratas e moscas, importantes vetores de doenças. Além disso, cachorros e gatos esfomeados abrem os sacos com os dentes e espalham o lixo pelas escadas. Embalagens vazias acumulam água e são chamarizes para mosquitos. A poucos metros dali, crianças chegam à creche…

   O dia segue agitado, colorido com pessoas e suas histórias. Porém, em alguns dias, o morro volta a acinzentar… Jaqueline acorda às 5h, prepara as três filhas para a escola e corre pra pegar o ônibus das 6h. Só que, neste dia, a polícia resolveu “baixar” cedo no morro. Logo se ouviram os primeiros tiros. Jaque, que acabara de deixar as filhas na escola, corre para a casa de Seu Nelson para se esconder. Não pode ficar muito, o ônibus não espera. Resolve descer mesmo assim. A patroa implica com atraso e ela era nova no serviço. Tinha que botar comida na mesa…

  A violência é personagem importante no dia-a-dia dessas pessoas. Trabalhadores, crianças, idosos vivem em meio ao fogo cruzado até com certa banalidade. “A gente se acostuma, minha filha”, disse-me uma moradora. Pergunto o que fazem quando começa o tiroteio. Ela se esconde com a irmã, também idosa, no quarto mais distante das janelas e se agarra a sua fé. Quando cessam os tiros, “é vida que segue”. No morro de céu azul, onde antes voavam pássaros, voam balas algozes e impiedosas, que a qualquer momento podem transformar em preto e branco o colorido de alguém…  

  “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali. Mas era feita com muito esmero, na Rua dos Bobos, número Zero.” (Vinícius de Moraes)

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