Dia 31 de Dezembro

   deixar-de-beber-alcool

Por César Monte Serrat Titton

Dia 31 de Dezembro. Unidade Básica de Saúde excepcionalmente aberta só no turno manhã, com metade da equipe usual a postos para os últimos atendimentos do ano.

Entra no consultório um senhor que nunca atendi e que não parece estar bem:

– Doutor, quero parar de beber.

   E vai contando que não tem se sentido nada bem… e que nunca antes tentou parar de beber. Bebe muito, todo dia, há décadas. É caminhoneiro, não tem mais usado outras drogas além do álcool. O hálito ainda etílico de quem parou há poucas horas, mas já com muitos sintomas de abstinência: agitado, ansioso, tremores, sudorese, coceira, náuseas, sem apetite, dor de cabeça, tontura…

   Pra complicar ainda mais: mora sozinho. Ultimamente, não tem rede de apoio na comunidade, não percebe ninguém com quem possa contar para ajudá-lo – e hoje é o último dia útil do ano, a Unidade Básica de Saúde estará fechada hoje à tarde, amanhã que é dia 1° de Janeiro e mais no fim de semana…

    Bem, vamos ver o que dá pra fazer: começo o tratamento dos sintomas da abstinência de álcool com soro e medicação intravenosa, deixo algumas horas em observação… mas chega a hora de fechar a Unidade. Ele melhorou um pouco, mas ainda não está tão bem, embora pelo menos não apresente sinais de alerta para abstinência complicada – só que as vezes os piores sintomas aparecem com 48 ou 72 horas sem beber, e ele não tem quem possa ajudar a identificar…

– Olha, o ideal seria voltares diariamente na Unidade nestes primeiros dias sem bebida, para ver como você fica e ajustar os remédios aos poucos. Só que vamos estar fechados…

– Não tem problema, doutor, me dê os remédios que me trato em casa.

– Se quiseres, podemos tentar procurar vaga de internamento, mas vai ser difícil, mas talvez precises ficar…

Me interrompe:

– Não precisa, doutor! Pode confiar que fico em casa, sem beber.

– Mas… como você vai passar o fim de ano?

(Justo esta época do ano…)

 – Em casa, doutor. Sozinho. Até tem o bar em frente que costumo ir, mas não vou mais lá não, pode acreditar…

(Ah não, mais esta! Acreditar como?)

– Hum… será que não tem alguém que possa passar te ver por estes dias? Ou algum outro lugar que possas ficar?

– Não tem não, doutor… (olha pra baixo)… mas não se preocupe, eu me viro sozinho…

(Olhos ainda injetados, hálito etílico, voz embargada…)

– Certo… bem, vou receitar os remédios para durar só estes dias de feriado, e que tal deixar marcada uma consulta para o primeiro dia útil de janeiro?

– Tudo bem, doutor, venho sim!

   E lá vai aquela receita de múltiplos remédios, explicada de novo e de novo, orientações sobre os cuidados e sinais de alerta – quanto será que ele está entendendo? Confiro. Tento estimar o quanto ele vai precisar de remédios quando os sintomas da abstinência baterem forte. Uma baita vontade de cruzar os dedos…

***

   Ano novo, primeiro dia de trabalho, chega o horário da consulta agendada… ele faltou. Peço para fazerem contato: por telefone não o encontram, a agente comunitária não o encontra em casa…

   Puxa! Suspiro, imagino ele no caminhão, Brasil afora, no estado em que o vi dias antes – ou estaria pior? Bem, recaídas fazem parte do processo, quem sabe numa outra oportunidade…

   Janeiro atribulado como único médico na Unidade, acabo esquecendo do caso. Até Março, quando abro o histórico do próximo paciente agendado – e é ele!
   Respiro fundo, me preparando para o segundo round…
   Chamo o nome na sala de espera… espera aí, acho que confundi, não é o mesmo homem – ou é?

– Doutor, eu vim hoje por causa de uma gripe, nem tá tão forte, mas a tosse incomoda muito, não consigo dormir. E queria pedir desculpas que eu faltei a consulta que o senhor marcou pra Janeiro, mas é que pintou um serviço para levar carga pro nordeste e eu fui… E também, sabe, queria muito agradecer o senhor por ter acreditado em mim naquele dia em Dezembro – naquele dia em que parei de beber pra sempre!

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