Existirmos ao que será que se destina?

ficaadica

Por Nathalia do Monte Lima Grisoli*

 

   Dia corrido no consultório. Eis que chega Diana, uma jovem senhora de 60 anos, acompanhada do seu carrinho de compras cheio de roupas e bugigangas. Numa mão traz um gengibre. “Dizem que é bom pra garganta, né?”. Na outra, traz a vergonha: cobre a boca para cumprimentar a doutora, pois lhe faltam o incisivos. Vem com os cabelos grisalhos penteados com o máximo de esmero e veste sua melhor roupa: uma saia jeans sem botão, ajustada na cintura com um lenço, e uma camiseta rosa com letras que lhe embaralhavam a cabeça. Não sabia ler direito…

Diana mora por onde passam centenas de pessoas, cabisbaixas e entretidas em seus smatphones, apressadas demais para olhar para o lado e enxergar por sob o amontoado de papelões e cobertores…

   A jovem senhora vem em consulta para fazer um exame para sífilis, pois Jairo, seu companheiro, foi diagnosticado com a doença há 1 mês. Além disso, queixa-se de palpitações esporádicas e dor em baixo ventre. De repente, começa a chorar… Quando perguntada sobre o motivo do choro, diz que tem muito medo de ficar doente e que acha que a dor na barriga pode ser câncer.

Ao exame, nenhuma alteração. Solicitados testes rápidos, todos negativos. Diana agora exalava alegria. Despiu-se da vergonha e sorriu. A médica perguntou-lhe se poderia ajudar em mais alguma coisa e, assim como eu, imaginou que ela fosse contar um pouco sobre as dificuldades e tristezas de um morador de rua. No entanto, Diana estava tão aliviada por ter boa saúde que sua condição social era secundária naquele momento.

Pensei comigo mesma: “Como ela consegue sorrir na situação em que se encontra? Como consegue ter momentos felizes?”. Depois entendi… Não é que ela fosse absolutamente feliz com a vida que tinha. Na falta de perspectiva em longo prazo, vivia um dia de cada vez. Neste dia, Diana teve uma conquista. Para nós pode parecer pequena, quase irrelevante. Para ela, uma motivação para viver o próximo dia…

Diana saiu do consultório contente, mascando seu gengibre e carregando seu carrinho de compras.
Carregava expectativas, medos, sabedorias, e não apenas um corpo lutando contra as adversidades. Não sei
qual será o seu futuro, mas de uma coisa tenho certeza: Diana não sobrevivia. Diana existia…

 

*Nathália é interna do curso de medicina da UFRJ.

Caso queria mandar seu causo, só enviar para causosclinicos@gmail.com

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