A partir de um olhar ressignificado

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Por Renato Guimarães

#DIAaDIAnaAPS

   Conheci Maria nos primeiros meses da residência. Veio na consulta para mostrar os exames solicitados recentemente  por suspeita de tuberculose. Encontro uma mulher com fáceis adoecidas. Já não aguentava mais tossir e a fraqueza tomava conta do seu corpo.
   Conversando com colegas de trabalho e revendo seu prontuário fiquei sabendo que era uma pessoa sem adesão aos seus tratamentos.  Mulher analfabeta, já havia morado na rua, sobrevivendo fazendo programa. Até  que conheceu o seu marido com quem tem uma filha. Aliás,  diz estar preocupada com a tosse por conta da sua pequena gordinha. Vivem com pouco mais de um salário. Então, eu vi naquele rosto expressões de doença do corpo, mas também de vida.
   Com diagnóstico prévio de HIV e Diabetes mellitus – ambos sem tratamento – lhe dei o diagnóstico de tuberculose. Ao olhar seus exames, a insegurança tomou conta de mim: como conseguirei ajudar essa mulher a se tratar, se não sabe ler e nunca segue nenhum tratamento? Frente a gravidade da situação,  explico sobre a tuberculose, seus riscos e sobre seu longo tratamento. Seria inútil abordar todos os tratamentos que precisaria em uma única consulta. Sendo assim, foi preciso  priorizar seguindo critério de gravidade: precisamos começar a tratar a tuberculose e, aos poucos, passar para o HIV e para o diabetes, enquanto buscava a construção de um vínculo.  Considerei, em partes, o perfil de pessoa confusa com o qual se referiam a ela, mas buscando ressignificar esse olhar. Tive que conter a minha ansiedade e acreditar que, com o tempo, vínculo e trabalho em equipe,  conseguiríamos dar conta de tudo.
   Num esforço multidisciplinar  começamos o cuidado para o tratamento da tuberculose no posto de saúde. Consultas e visitas domiciliares mensais. Idas diárias até a unidade para receber os comprimidos. Mês após  mês. Em cada atendimento reforçava sobre a importância dos remédios e da ida as consultas – agora também no serviço de infectologia. Busco saber sempre como foi a consulta com o colega no hospital. Com o tempo passando, a tosse sumiu, o mal-estar acabou e meu afeto por Maria e sua filha foi aumentando. O vínculo foi se formando e firmando. Passaram-se os seis meses de tratamento. Radiografia sem sinais de doença. HIV quase indetectável, com o uso regular das novas medicações  prescritas pelo infectologista e buscando mudar seus hábitos alimentares: “Estou procurando comer peixe toda semana. Até camarão eu fiz!”, me conta sorrindo. “E o açúcar?”, pergunto. “Só adoçante!”. 
  Terminando o atendimento, diz: “Vou sentir falta de vir ao posto todo dia pegar o remédio!”. Rindo e com sentimento de estarmos no caminho certo, respondo: Pode vir sempre dar um oi. Mas o próximo passo é  controlarmos bem o Diabetes”. Ela ri. Nos desejamos Feliz Natal e ela sai do consultório.
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