Pós operatório

tratamento-encarnado
Por: Felipe Monte Cardoso*
– Hoje, doutor, o que mais preciso é um raio x de coluna. É para o pós-operatório.

Desta vez foi direto, embora eu previsse ser um encontro truncado. Domingos tem estilo sinuoso e, naquele dia, percebi a sua semelhança física com José Saramago. Ele me fascina por me incorporar à faceta sobrenatural do seu cuidado. O pós operatório, saberia em seguida, era de uma cirurgia espiritual.

   Ele percebe minha perplexidade e apenas aos poucos revela sua magia. Já me prognosticou como filho do homem da pedreira. Sua preocupação maior hoje, no entanto, coincide com a minha: uma imagem estranha e suspeita no ultrassom. Recua fazendo uma prescrição dos benefícios da terapia extramundana e se coloca à minha disposição para intermediar o contato com o além. Descreve minuciosamente a preparação para a cirurgia, a competência do responsável pelo procedimento e sua fama crescente pelo Rio de Janeiro, que desbanca nomes bastante conhecidos. Como são todos estranhos para mim, ele nota meu enfado. Domingos tenta afastar o medo de câncer com esta longa digressão, e eu tento interrompê-lo para que a consulta volte a seu curso normal.

  Ele não abdica do protagonismo e prossegue dizendo que tenho poderes e que serei um futuro cirurgião espiritual após meu passamento. Fico entre lisonjeado e desconfortável com a ideia da minha morte. Após instantes imaginando minha futura carreira de cirurgião, retomo a consulta, abrindo a porta para outras queixas sem relação aparente com o procedimento recém-realizado. Minha impaciência cresce na medida da exuberância dos seus sintomas. Então ele retoma o pedido de raio x.

   Peso os prós e contras. Por um lado, a missão de não medicalizar. Por outro lado, era inegável que já era um recurso daquele cuidado transcendental. Fantasiei que era parte do meu aprendizado para a futura carreira e decidi solicitar. O que faz a vaidade, pensei com uma ponta de remorso. Mas meditei que minha curiosidade e minha posição de antropólogo improvisado por fim justificavam o exame.

   Começou então o tiroteio, que durou poucos minutos e provocou um princípio de pânico. Neste pedaço da cidade não costumava haver tantos tiroteios, e nossa clínica nunca havia fechado até aquele dia. Domingos se manteve altivo e nos tranquilizou dizendo que estava longe.

  Após me exasperar, percebi que trabalhar me manteria no prumo, e pedi os exames que considerava necessários, além da radiografia. Cortesmente, liberei Domingos e terminava o registro da consulta quando ele retornou ao consultório me pedindo outra radiografia, desta vez para o estômago. Ele disse que sua dor de estômago atual, muito intensa, foi idêntica à úlcera, diagnosticada 40 anos antes com um raio x. Desta vez, tive êxito em despachá-lo com rapidez postergando este pedido para a próxima consulta. Estava ficando atordoado com o barulho do corredor, que fervia com uma carga extra de estudantes, além dos pacientes. Mais tiros, desta vez próximos, e duas granadas, mais distantes, foram o suficientes para provocar certo terror.

   Sentia minha cabeça girar. Dei um gole no mate e busquei me recompor, quando bateu à porta uma jovem de branco que nunca tinha visto. Ela tinha uma voz serena e pedia que a acompanhasse para a sala de observação, onde havia um paciente passando muito mal do estômago. Quando abri a porta, Domingos estava com os olhos fechados, talvez inconsciente, e muitas pessoas de branco me esperavam com grande expectativa. Não vi sinal de sangue no corredor, e ninguém soube me explicar o que acontecia.

*Felipe é médico de familia e preceptor do programa de residência médica na SMS do Rio de Janeiro.

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