Dona Maria

 

dia-das-mulheres

Por: Jéssica Frutuoso

 

   Conheci dona Maria 1 ano e meio após seu estupro. Após o dia que haveria de mudar sua relação consigo mesma e com os outros de uma forma devastadora. Ela não olhava nos olhos e insistia em ter alguma doença que não podia ser identificada por exames médicos. Não conseguia estar sozinha com nenhum homem e o toque masculino lhe causava um pânico desesperador, mesmo que fosse a tentativa de abraço de um irmão querido. Após alguns encontros ela me revelou o terror daquele dia. Ela estava pronta pra contar, até hoje me pergunto se eu estava pronta pra ouvir. A lembrança das suas memórias me fazem querer vomitar até hoje.

   Dona Maria se recusava a compartilhar essa história com qualquer outra pessoa, incluindo outros profissionais de saúde. Por diversas vezes me perguntei como poderia ajudá-la sozinha. Iniciamos acompanhamentos semanais e a cada encontro mais eu tinha certeza que só tinha meus ouvidos e meu abraço para acolhê-la. Em alguns momentos choramos juntas, dividíamos aquela dor que era tamanha e que transbordava, que tinha nascido numa vida cheia de preconceitos e maus tratos por ser mulher, negra e pobre, passado por violência doméstica e “terminado” no estupro por um desconhecido.

  Foram mais de 2 meses de encontros semanais até que ela conseguisse ir a um dos centros de referência em atendimento à mulher que sofre violência. Foi uma conquista que parecia quase impossível. Dona Maria finalmente conseguiu compartilhar suas histórias com outras pessoas e permitiu que o círculo de cuidados se ampliasse. Antes de ir perguntou se eu continuaria cuidando dela. Garanti que continuaríamos nossos encontros semanais até que nos sentíssemos confiantes em distanciar mais nossas conversas.

   Um dia desses conversamos sobre prazer. Ela havia começado a voltar a sentir desejos. O sono que antes era permeado de pesadelos com relação ao estupro, começou a permitir a presença de sonhos eróticos que lhe traziam bem estar. No último encontro foi bonito ver dona Maria, 52 anos, descobrir, mesmo após tanta violência, as possibilidades de prazer que o nosso corpo pode nos dar. Ver sua libertação, sua curiosidade em descobrir regiões suas que ela nunca havia se permitido tocar. Dona Maria disse que se sentia mais mulher. Estava no consultório de cabelos pintados, me olhando nos olhos, me dizendo que estava se valorizando e se sentindo valorizada, me enchendo de orgulho. Dona Maria me mostra mais uma vez o quanto o ser humano é potente. O quanto somos capazes de ressignificar até as mais terríveis violências. O quanto não posso desistir nem de mim, nem do outro nessa tentativa contínua de “ser melhor”.

   O estupro engoliu 2 anos da sua vida, vai permanecer sendo uma violência presente sempre em seu coração, mas dona Maria hoje conseguiu se fortalecer, viver e se permitir tentar ser feliz apesar dele. A violência contra mulher é real, é danosa, mata. Quando não tira a vida, mata em vida. São milhares de donas Marias espalhadas pelo mundo. Que a gente consiga estar sensível a essa causa, dispostos sempre a acolhê-las. É preciso estar atento e forte para continuar na luta contra o machismo e a favor dos direitos e da vida das mulheres.

   Hoje deixo aqui meu viva às donas Marias, às mulheres desse mundão que pra mim são o estereótipo de força e beleza que há nessa vida.

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