Fandangos, macumbas e xiitas

fandangos_verdadeiros

Por Carol Reigada

“Doutora, ainda bem que te encontrei. Luisa está com diarréia e vomitando.”

   Elas me encontraram enquanto eu andava para a unidade básica de saúde, para começar mais um dia de trabalho. Luísa é a filha de 1 ano e 5 meses dela. Vinha no carrinho, empurrada pela mãe, agitando as perninhas morenas e brincando com uns papéis enquanto sorria pra mim com aquela boca cheia de saliva, os cachinhos morenos balançando com o sobe e desce do corpo pequeno.

“Tadinha, mas ela parece estar bem, tem muito tempo?”

“Foi ontem a noite e hoje de manhã. Duas vezes, mas a gente fica preocupada. Vim no mercado comprar um Fandangos, que é de milho. Milho prende, né?”

“Olha…mesmo que milho prenda, quase não tem milho no Fandangos, é uma comida nada saudável. Melhor gastar dinheiro com pão, leite, essas coisas. Mas não precisa ficar preocupada, vai lá na unidade que a gente vê a Luisa direitinho”

“Ah doutora, mas isso vai precisar do pastor. Foi porque ontem um bêbado preto que mexe com macumba encostou na cabeça dela, antes que eu parasse ele”

“Hum…é, entendo como ‘bêbados’ podem trazer confusão, mas qual o problema dele ser ‘preto’ ou ‘mexer com macumba’?

   Não tive resposta. E acho que falei demais, porque a mãe não levou Luísa na unidade – mas, devaneios sobre posturas corretas na relação médico-paciente à parte, tem vezes que o ethos (ética) da relação humana fala mais alto.

Ou foi o milho do Fandangos que melhorou a pequena. Vai saber, né?

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