Depressão

depressao-dor-na-alma

Por Carol Reigada

   O fim da tarde se aproximava, era possível perceber a mudança de luz nas folhas das
árvores do lado de fora do consultório.
Adentra a sala uma das últimas pacientes do dia. Negra, cabelos brancos. Parecia ter 80
anos, mas pelo prontuário, tinha 64. Se vestia de blusa lisa e simples, bermuda de
malha, chinelos. Carregava duas grandes sacolas com roupas. Parou na clínica da
família para falar dos remédios de pressão, antes de continuar o caminho para casa,
morro acima.
“E como a senhora está?”, pergunto para início de consulta.
“A gente leva a vida enquanto ela nos leva”, responde para início de conversa.
Pressão alta, mas os remédios não estão faltando. “É que sobram preocupações”, foi o
que ela me respondeu.
“O que vem preocupando a senhora?”
História de filme de drama. Filho sonhava em sair do morro, casou com uma menina
que sonhava em sair do morro. Ambos trabalhavam dois empregos que sustentavam
mais que a vida, sustentavam um sonho. Conseguiram, saíram. Compraram um
apartamento “sabe, desses que financia pela Caixa pro resto da vida?” e tiveram uma
filha. E a vida se estabelecia enquanto o sonho se concretizava. Até que, saindo do
segundo emprego tarde da noite, voltando para o apartamento financiado, onde mulher e filha o esperavam, o filho foi atropelado. “Um desses ricos bêbados. Não parou pra
ajudar, só foi embora”. O filho morreu, o motorista não foi encontrado.
Agora não têm dinheiro para pagar a Caixa. Não tem mais pai, filho nem marido. Minha
paciente aposentou-se com salário mínimo, mas voltou a trabalhar, a lavar roupa pra
fora pra ajudar a criar a net a e pagar o apartamento, financiado para o resto de uma vida conjunta que não existe mais.
O rosto endureceu, o queixo apontou pra cima, o olhar escureceu.
“E a senhora conversa dessa dor com alguém?”
“Converso com Deus. Com a minha neta. Mas não me abato, não. Pobre não tem tempo
de ficar triste. A vida tem sabedoria.”
Já dizia o poeta, “a vida tem sempre razão”. E que força emana dessa aceitação do que
não pode ser mudado. Ou será conformação com o estado injusto das coisas?
Próxima paciente, entra logo em seguida. Parece ter 50 anos, mas no prontuário, a idade
é 65 anos. Branca, faces rosadas de blush, óculos escuros, blusa de linho.
“Como posso ajudar a senhora?”, pergunto para início de conversa.
“Preciso dos remédios da depressão”, responde para início de consulta.
Trabalhava em “um posto muito importante de uma empresa multinacional”, aceitou a
proposta de aposentadoria da empresa e agora “vive com a desvalorização anual do que
trabalhou a vida toda”.
“A falta do dinheiro vem preocupando?”

“Claro, dinheiro sempre preocupa”. Contou que estava acostumada a ser sócia do Clube
do bairro e a viajar duas vezes por ano pro exterior, e com o salário que tem, só
consegue uma visita rápida à Europa no mês de junho.
“Entendo”, triste por realmente estar entendendo muito mais do que ela contava.
“Estou em luto por ter perdido tanto na minha vida, e agora ainda sou escrava do
remédio da depressão, para tentar aproveitar o que me resta”.
Faço a receita, mas perdi a vontade de continuar o dia. Palavras rodam na minha cabeça.
Luto, perda, escrava, tristeza, depressão.
“Palavras, momento”.
Palavras com significados tão diferentes em duas vidas tão díspares e tão
interconectadas, de duas pessoas que moram a menos de 5 km de distância entre si.

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