Face ao inominável da Vida

Em homenagem ao mês das mulheres… e em homenagem ao SUS.. o maior sistema de saúde universal..

perdao

Por Janaine Camargo*

Conhece-la foi como ver uma andorinha insegura no ninho… Vinha emagrecida, pele marcada pelo esmorecer e com olhos que ansiavam por entender: “O que se passava com aquela dor no estômago?”. Havia eliminado sangue… Não foi preciso ser sagaz para compreender os sinais do corpo físico. A endoscopia digestiva foi certeira e a biópsia não deixou dúvidas: adenocarcinoma gástrico penetrando paredes e antro do órgão que alimenta a vida.

Recebeu o diagnóstico sozinha, com um pouco de entendimento e um muito de fé. Com uma segurança que não tínhamos, falávamos-lhe sobre os próximos passos. A família se aproximou após o diagnóstico. Vinham do interior de Pernambuco para buscar sobreviver em São Paulo. Viviam em um pequeno cortiço… casa pequena, simples, mas sempre muito bem cuidada. Sofriam por saber que não dispunham de recursos para auxiliar no tratamento. Juntos, aguardaram ansiosos a cirurgia nunca realizada e a quimioterapia da qual esperavam a cura. Não faltaram preces, visitas do pastor evangélico e, claro, a garrafada da vizinha: conhaque, mel e babosa já curaram muitas feridas no estômago.

Seis meses se foram céleres. Nossa equipe, sem receber informações do centro de tratamento, não sabia bem o que esperar. A família agora estava insegura. A andorinha já não tinha mais forças para voar. Emagrecia, passava a ter dores permanentes no epigastro, já não tolerava o alimento. O que mais era possível fazermos? Fomos à primeira visita em seu ninho.

Já estava com sonda nasoentérica, mas não aceitava a dieta. O marido brigava para força-la a comer: queria seu bem e não era por mal que negava a doença. Além disso, a pouca instrução dos anos primários lhe trazia dificuldade de lidar com a infusão do preparado industrial. Mas não… A questão da hiporexia era a falta de fome de sua alma. Foi a primeira vez em que falamos sobre o significado de tantos acontecimentos: “Não quero mais comer, pois, tudo que eu como, serve de alimento primeiro para essa ferida, que só cresce…”. Primeiro mostrou-nos sua ideia sobre o que “alimentava a doença” e, depois, a nova tomografia.

Pudemos perceber o estadiamento tumoral e compreendemos o adiamento da cirurgia. Nenhum médico havia sido claro sobre seu prognóstico. Mas a vida é verdade que não se esconde: ela começava a sentir sua despedida. Sim… Cabia à APS coordenar o cuidado: acompanhar a pessoa em seu diagnóstico e tratamento, curativo ou não. Vimo-nos diante da incerteza sobre nosso papel: sim, ela precisava de cuidados paliativos. Se nós não estivéssemos ali para fazê-lo, ninguém o faria.

Na sala pequenina, uma troca de olhar entre profissionais disse tudo: médicos de família e comunidade se identificam pelo seu compromisso com a pessoa. Cumpriríamos nosso papel: seríamos os contrarregras que fariam o possível para que a andorinha estrelasse seu último verão de modo autônomo e pleno.

Marido, filha e cunhado sabiam que tínhamos algo sério a dizer enquanto o netinho brincava no chão. Conversamos com eles sobre as crenças: qual seria o propósito da doença? Qual o propósito da vida? Ela se mostrava serena, enquanto o marido, com o último balbucio da barganha, perguntava: “Doutora, você já viu pessoas como ela se curarem, não viu?”. A dignidade deles merecia a nossa honestidade.

*Janaíne mandou para nós seu texto, caso queira compartilhar seu causo, envie a nós: causosclinicos@gmail.com.

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