Vitória do Medo

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Por Eberhart Porocarrero Gross

 

   Fica, daqui a pouco a gente vai cortar o bolo. Mesmo cansados, topamos ficar mais um pouco. Afinal, minha amiga parecia genuinamente feliz com a nossa presença. A sala pequena cheia com poucas pessoas, parece que fomos mesmo escolhidos com cuidado para estar na festa de noivado.

   Até que o bolo estava gostoso mesmo, com uma camada de mousse no meio. Eu já estava no segundo pedaço quando alguém deu um passo desengonçado num canto da sala, uma perna voltou atrás, os braços balançaram ao lado do corpo. A mulher magra pareceu tentar se segurar no ventilador portátil, que caiu junto com ela. Toc, aquele som seco do occipital batendo no chão de tábua corrida. Quando dei por mim, estava com uma mão firme no tórax dela, outra virando o seu queixo para o lado, reflexo condicionado para estabilizá-la e evitar que se engasgasse com um possível vômito que, de fato, logo veio.

   Uma pequena quantidade de líquido transparente e quente tangenciou a minha mão e escorreu pelo chão. Mãe!, grita uma voz infantil. Vira a cabeça dela para o lado!, diz alguém que chega logo depois de mim com um tom de comando que me já desagrada. Não está vendo que já está virada, penso. Não está convulsionando, não se debate, faz movimentos discretos.

   Minha mão direita desliza do tórax para o lado do pescoço, a carótida pulsa firme, forte e ritmada. Em instantes os olhos se abrem, de princípio pouco entorpecidos, e logo arregalam-se na expressão típica de quem não está entendendo o que se passa ao seu redor. Acaricio a cabeça e sorrio, como quem diz que tudo está bem.

   Ela faz como quem quer se virar e eu a ajudo. Vira ela em bloco, o tronco junto com a cabeça, diz aquela voz masculina. Não levanto os olhos, mas já começo a desenhar a imagem do médico que não sabe distinguir um traumatismo craniano grave, desses de acidente de moto, de um mais suave, por um desmaio. Confundir os eventos leves com os graves é marca de nossa medicina ignorante e exagerada.

  Ajudamos a moça a se virar e a sentar. Ela está obviamente desconfortável com o vestido e suas longas fendas, agora pouco elegantes, esparramadas no chão. A casa toda olha para ela, assustada. Ela retribui os olhares e tenta juntar o vestido sobre as coxas. Visando diminuir o desconforto, me levanto e dou um passo atrás, para que se sente melhor no chão e se recomponha. Aí, pensei depois, foi o meu engano. O dono da voz que já havia me desagradado ocupa o vazio que deixei e começa, monocórdico.

  Você tem alguma doença? Hipertensão, diabetes? Vocês têm um aparelho de pressão? Traz sal, para o caso de a pressão dela estar baixa. Não só não lhe deu espaço como a afogou com perguntas. Ele examina o galo sem pedir licença – ela faz uma careta, eu também. Segue-se um pretenso prognóstico. Você caiu e bateu a cabeça, vai ter que ir para um hospital. Foi um hematoma subgaleal, mas ele pode se expandir e você piorar. Essa última parte fez menos sentido que todo o resto, ao exagero se soma um uso inapropriado dos termos técnicos, me pergunto se ouvi certo. Ajudo ou atrapalho corrigindo? Acho que mais atrapalho, prefiro me manter calado. Uma discordância assim frontal, em especial sobre a necessidade de avaliação hospitalar, provavelmente traria mais confusão para todos.

  Pressão aferida, ela tenta se levantar. Alguns se posicionam para ajudá-la. Não, interrompe a voz. Você vai cruzar os braços na frente do tronco, assim, e nós vamos te levantar. Por favor, ela já está melhor, penso. Mas só penso. Ele a levanta na posição instruída e a leva para o quarto. Ainda na sala, confiro a pressão no aparelho digital, 94×68 mmHg. Pouco mais baixa que o habitual dela, costuma ser hipotensa, me explica seu irmão. Penso que o melhor será deixá-la se recuperar. Já foi para o quarto. Minha esposa me instiga a segui-la, e insiste diante da minha expressão de descontentamento com a situação. Ela já está sozinha no quarto com o dono da voz. Aí há perigo, isso sim.

  Entro no quarto, ela já vomitou em maior quantidade, se sente mal. Os pés por baixo da voz tentam passar a poça de vômito com um passo largo, pisam no vômito e escorregam. A bunda por baixo da voz aterriza no chão. Esqueço a compaixão por um instante. Não consigo fazer nada melhor do que observar e ajudar com pequenos movimentos a limpeza do quarto, a passagem dos baldes. Falar só poderia atrapalhar. Não seja por isso, lá vem ele: A que hospitais ela tem direito? Que remédios vocês têm aí? Compra vonau flash na farmácia. Cacete, uso esse remédio para vômitos de quimioterapia. Onde será que esse cara trabalha? Ele sai do quarto, me sinto aliviado.

   Ficamos a mulher, deitada, uma irmã, minha esposa e eu. Você já estava se sentindo mal antes? Já, desde o almoço, responde a irmã. Já tinha vomitado antes. E eu nunca passo mal, completa ela. Devo ter comido algo muito estragado. Concordo. Eu estava tentando ir ao banheiro para vomitar, na hora que caí. Pronto, assim tudo faz sentido. Bastou ouvi-la. Familiares entram e saem do quarto, a fala de hospital se repete. Fazer uma tomografia, alguém diz de novo. Você desmaiou, mãe! Respiro fundo e ensaio uma intervenção. Parece que ela comeu algo estragado, se sentiu mal, desmaiou por causa disso. Só. De novo as pessoas entram e saem, uma adolescente nervosa enxuga as lágrimas. Me sinto bem por ficar ao lado dela, me parece que é este o lugar do médico.

   Nem sinal do rapaz da voz incômoda. Ela respira, descansa, se senta na cama, dá um sorriso amarelo. Vou ao banheiro. Acho que só preciso de um pouco de descanso, já estou me sentindo um melhor. Sorrio de volta. Vou pra casa descansar. Não! – e ele está de volta – Você não pode ir para casa. Você tem que ir para o hospital agora! A voz acostumada a ser autoritária, a mulher com olhar agora mais inseguro parece ter medo de contrariar. Minha amiga entra no quarto, fala que está organizando as coisas para levá-la ao hospital, pergunta o que eu acho. Repito que ela me parece bem, que descansar um pouco deve ser suficiente. Mas mal não faz, né? Só por precaução.

   Como explicar, de repente, que faz mal, sim? Que, além de ser um ambiente gerador de ansiedade, há radiação, medo, remédios com efeitos colaterais, exames com falsos positivos, mais violências? Que há reações alérgicas e perda de autonomia? Que há expropriação da saúde, ainda que esta saúde hoje venha com vômitos e uma breve hipotensão? Que o hospital é um lugar perigoso? Não consigo. Apenas inclino a cabeça para o lado e aperto os lábios.

   Ela é levada ao hospital. Me pergunto o que mais poderia ter feito.

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