Suicídio

suicidio

 

Por Carol Reigada

Setembro foi escolhido para ser pintado de amarelo e dedicado a aumentar a conscientização sobre o suicídio. Tenho pensamentos contraditórios sobre essa onda de colorir os meses com doenças. Por um lado, legal aumentar a discussão sobre o assunto, por outro, é tanta iatrogenia e tanto ganho comercial em cima disso! Por exemplo, Suécia já suspendeu as mamografias de rastreamento de câncer de mama, pois viu que mais atrapalhou que ajudou – mas a bola do último jogo da seleção brasileira (contra o Chile), era rosa, só por causa do “Outubro Rosa”. Meio ridículo, mas não é o ponto.

O ponto é o suicídio.

Médicos não lidam bem com a  “Morte”. O que é meio irracional, já que ela chega para todos nós. Mas, para os brios dos doutores, é como uma derrota. Porém, perder um paciente, um familiar, um amigo, um conhecido que se mata…Não é exatamente derrota, é um pesar que pesa desde a consciência até o coração e parece que chumba a própria alma. “Como não percebi que era tão grave? Como devia ser, sentir esse desespero e só ver a morte como saída? Eu devia ter feito alguma coisa.”

Trabalhando como médica de família e comunidade, são raras as vezes em que realmente sinto que “salvei alguém”. Afinal, não estou no serviço de emergência reanimando corações que pararam de bater, nem atendendo a acidentes pela rua, dentro de uma ambulância. Digamos que nosso “salvar” é físico e psíquico, mais a longo prazo, mais compartilhado e menos heróico, na definição “super-herói” da palavra.

Certa vez, atendemos a um senhor de 56 anos. Estava, ironicamente, com uma blusa de botão amarela, clarinha. Não era setembro, devia ser novembro. Ele veio com uma dessas queixas que te fazem respirar fundo, como “dor na ponta do dedão quando eu como alho”, ou algo assim. Mas tinha algo de profundo na forma de falar sobre sua queixa estranha, tão profundo que mereceu um olhar mais atencioso, um toque de leve na mão e a pergunta: “tem mais alguma coisa acontecendo?”.

Ah, mas tinha. Seguinte: ele ia se matar aquela noite. Comprou chumbinho e umas giletes, resolveu que se não fosse por um jeito, seria por outro. Tinha vindo uma última vez, tentar conversar. Senti o peso da responsabilidade daquela consulta. A dor na ponta do dedão, blablabla, se tornou uma tonelada na minha cabeça.

Rede social? Uma ex-mulher que ele não conseguia se livrar, um irmão que trabalha muito. Ligamos para o irmão, ele veio, conversamos. Combinamos o seguinte: o irmão foi com ele até a casa dele, e tirou tudo aquilo da casa: chumbinho, gilete, faca, corda…. Voltou com tudo para o carro dele e jogou na lixeira. Naquela noite, e em algumas seguintes, meu paciente de blusa amarela dormiu na casa do irmão.

Começamos o tratamento e as coisas foram seguindo. Ele entrou no grupo de atividade física da unidade e passava lá para “tirar a pressão” algumas vezes por semana. A vida ia correndo.

Dois meses depois, ele veio reclamar que estava rouco há uns dias, por causa de uma gripe. Duas semanas depois, e nada da rouquidão melhorar. Conseguimos uma laringoscopia que o levou direto ao INCA: câncer de laringe. A equipe ficou pra baixo, mas veja só, ele não! Consultou, tratou, operou e retornou ao grupo de atividade física. Voltou a medir a pressão de vez em quando, só pra dar um oi. Resolveu o problema com a ex-mulher. Fez novos amigos.

Esse setembro me fez pensar sobre o suicídio, e lembrei desse paciente. Foi um dos poucos que senti: “salvei”. E me fez sentir ainda mais responsável: aquele homem estava desesperado e achava que não tinha saída. Ele ia se matar. Naquele dia, não foi preciso internar, ou de uma grande tecnologia para salvá-lo. Bastou o telefone celular e a disposição do irmão. Com alguns dias, o paciente percebeu que a vida tinha mais coisas a oferecer, tinha mais saídas daquele labirinto. Nosso único trabalho foi ajuda-lo a passar por aqueles poucos dias. Para metaforizar, foi só dar a mão enquanto ele passava pelo túnel.

Pensei como teria sido se ninguém tivesse tido a sensibilidade de perguntar melhor sobre o que ele estava passando. Se ninguém tivesse ouvido. Se o irmão não tivesse intervido tão prontamente. Se ele não tivesse ido na clínica da família naquele dia.

Nós, médicos de família e comunidade, não salvamos pessoas cotidianamente. Mas não podemos nos dar ao luxo de não ter os ouvidos a postos. Nunca sabemos quando eles podem ser os heróis do dia.

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