O dia em que lidei com a morte pacificamente

andressaPor Andressa Paz*

“When the rain falls down / What brings it back? / Opens the resurrected cloud / From white to black / It’s a second birth / For dying skin / In my coffin…”  (My coffin – Jon Foreman)

       Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ”  Então, lá vou eu me aventurar na história do dia em que lidei com a morte pacificamente.

     Esse causo começa com uma jovem estudante do 4º ano de Medicina no Rio Grande do Sul indo fazer Visita Domiciliar em um pequeno município horas e horas e horas Rio Amazonas adentro. Porém, essa história não é sobre a garota (eu, prazer), mas, sobre a ocasião em que ela compreendeu o real sentido da expressão “Descanse em Paz”.

     Tudo começou com um “Olá! Bom dia, dona Chica! A gente soube lá na base que a senhora pediu para virmos até aqui ver o Seu Antônio…”, e assim começou a entrevista médica:

  • Ô, ele não tá bem. Ele nem fala mais e também não tá conseguindo andar direito. Também ele tá com fastio e não come desde o dia que ele teve aquela diarréia braba!
  • Huummm… E como foi essa diarréia, dona Chica? A senhora percebeu se ele está sofrendo ou com alguma dor? Conta um pouquinho pra gente.
  • Foi semana passada… Faz uns 5 dias desde essa vez. Ah, e era um cocô tão fedido que a gente nunca tinha visto! Só que uns dois dias atrás ele não fez mais… tá bem trancado. Olhe, mas nós tentamos alimentar esse homem… Até colocamos uma comidinha batida no canto da boca dele, usamos algodão também, mas a única coisa que ele quer é água e dormir. Estamos tentando dar os remédios que o doutor passou e umas vitaminas também. Agora ele não aparenta estar com dor, mas tamo preocupados com esse fastio.

     O Sr. Antônio, um homem idoso nos seus setenta anos, já em cuidados paliativos, estava visivelmente desidratado e desnutrido severamente… Durante o exame físico, verificamos uma hipotensão e o médico mais experiente que acompanhava a consulta constatou um Glasgow 10 ao exame neurológico. No entanto, o exame que mais chamou a atenção foi o abdominal. Quando o abdome do seu Antônio foi palpado, o rosto mostrava profunda dor. Hipótese? Provavelmente passando por um quadro de hemorragia digestiva alta. Essa hipótese se confirmava ainda mais quando olhávamos para a lista de remédios de uso contínuo dele.

     Infelizmente (ou felizmente, você decide!), a conduta médica pensada não foi totalmente aceita pela família. Primeiro, foi sugerido encaminhar seu Antônio para a próxima cidade com hospital e endoscopia disponível, onde ele poderia realizar exames confirmatórios e tratar especificamente o sangramento. Só que toda a logística de transporte e a manutenção da família junto a ele na cidade grande eram muito difíceis.

     Na verdade, mesmo se não existissem grandes problemas quanto a isso, havia um fator importante que não estávamos considerando: competência cultural. A família do senhor já havia decidido que ele teria uma morte domiciliar: “Doutores, a gente não pode mandar ele pra lá… Um tempo atrás quando ele tava melhor ele falou que se a gente ao menos tentasse mandar ele pra outro lugar que não fosse aqui ele ía vir puxar nosso pé de noite depois que ele morresse! ”

     No fim das contas, seu Antônio foi medicado com Sais de Reidratação e encaminhado, por meio de uma cartinha, ao médico da Unidade de Saúde local, nossas bem pensadas opções diante daquele cenário. Essa experiência foi bem diferente e significativa para mim. O empoderamento daquela família me chamou a atenção e comecei a pensar em como eu mesma poderia empoderar meus pais e familiares para compreender de forma tão pacífica a finitude da vida e para abraçar de vez os Cuidados Paliativos e o Home Care também. Por que, não?

     O senhor Antônio melhorou bastante no dia seguinte, após hidratação, mas depois de dois dias, durante o amanhecer, ele faleceu.

        Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ” Acho que a jornada do seu Antônio para a morte foi pacífica e acho também que ele não vai voltar para puxar os pés da família de noite!

Em paz,

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*Andressa Paz,

Acadêmica do 4º ano de Medicina em Lajeado – Rio Grande do Sul, co-criadora do Auscultando Estórias, um blog para compartilhar experiências em saúde, amante de Saúde Rural e futura MFC.

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